A Rua XV ainda era aberta para a circulação de veículos quando a história de amor entre a lente do fotógrafo Sérgio Sade e Curitiba começou. Ele foi o único fotojornalista, na época (1968), que a pedido do então prefeito Jaime Lerner documentou o início das obras de calçamento que transformaram a região em cartão postal da cidade.
De 1968 para cá, Sérgio Sade testemunhou, com seu olhar de profissional, muitas mudanças. Considerando Curitiba a melhor cidade no Brasil para se viver, ele lamenta o fato de os curitibanos em geral não valorizarem o que é local. ‘‘Ouço pessoas que não têm idéia dos congestionamentos que existem em São Paulo reclamando que o trânsito de Curitiba está péssimo’’.
Segundo plano - O escritor Nelson Padrella concorda com o descaso do curitibano em relação ao que é produzido na cidade, principalmente na área cultural. Ele cita a definição do cineasta Silvio Back - ‘‘Curitiba é como um tambor de lata, em que você bate e não repercute - o resultado é um som oco’’. Morador da cidade desde 1957, Padrella diz que foi seu lado masoquista que o fez viver em Curitiba todos esses anos.
Às vesperas da aposentadoria, o escritor pensa em se mudar para fora do país. ‘‘Estou decepcionado com a forma como o artista é tratado em Curitiba, sempre relegado a segundo plano pelo poder público e pela sociedade’’. Como exemplo, ele cita o Festival de Teatro de Curitiba que, em sua opinião, comprova que a população aplaude com muito mais entusiasmo o que vem de fora.
Pequenas coisas - Para a poeta Alice Ruiz o melhor de Curitiba está nas pequenas coisas, como a arborização e o trabalho de separação do lixo. Ela considera difícil falar da cidade com imparcialidade porque ‘‘a relação com a cidade em que nascemos é parecida com a relação entre mãe e filho - amamos nossa mãe, mas nunca estamos totalmente satisfeitos com ela’’.
Entre as insatisfações, Alice coloca o crescimento acelerado da cidade e a existência de um complexo de inferioridade que inibe a consagração de qualquer artista local. ‘‘Curitiba é um estímulo à criação artística por sua qualidade de vida, mas na hora de divulgar o trabalho ela se torna um deserto’’. Prova disso, completa, é a inexistência de editoras e gravadoras curitibanas no mercado nacional.
O principal problema, na opinião da poeta, é a falta de união e identidade entre os curitibanos, que pode ser atribuída à colonização por diferentes etnias. ‘‘As diversas comunidades de imigrantes passaram muito tempo fechadas em sua própria concha, falando suas vozes particulares sem construir uma unidade que resultasse na emissão de uma só voz’’, teoriza. (T.W.)
Canção para Curitiba

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