Prestando serviços como produtora de camarim para três produtoras culturais de Curitiba, há oito anos, dentre elas a Seven Shows, Paula Abrão, 26 anos, afirma que as bandas gringas são mais exigentes do que as nacionais e costumam pedir ''coisas estranhas''. O tempo demandado para organizar os camarins dos estrangeiros também é superior, e pode levar semanas para providenciar tudo que solicitam nas imensas listas. Já as exigências dos músicos brasucas, geralmente, Paula dá conta num único dia, como as da produção do show de Zé Ramalho, que teve no Guaíra, semana passada.
''Veja que a banda americana Evanescence pediu para comer um chantilly da marca Hazelnut, balas Sunkist, vodka Ketel One, cerveja Corrs e suco de amora, que não existem aqui. Eu enviei um e-mail para a produção da banda sugerindo produtos substitutos. Mas, às vezes, não tem jeito, eles batem o pé e a gente tem que ir atrás mesmo, nem que seja para trazer de uma importadora de São Paulo'', disse Paula, que é fisioterapeuta e dona de clínica de estética.
''Fizemos a produção do show da Avril Lavigne, ano passado, e foi bem complicadinho. Ela exigiu um camarim em motivo oriental e pedimos ajuda de uma arquiteta. Você acredita que ela olhou de fora e nem entrou no camarim'', disse ela, indignada. ''O pessoal do Black Eyed Peas pediu só para o final do show 80 cheeseburger do Mc Donald's. Imagine, seriam dez sanduíches por pessoa. Acabou que eles comeram 30 e o resto foi tudo para o lixo'', revela ela, dizendo que a vocalista Fergie também solicitou cápsulas de Echinacea (energético natural).
Segundo Paula Abrão, as bandas costumam exagerar nos pedidos. ''Eles sabem que a produção sempre vai cortar, por isso pedem quantidades absurdas, como 20 carteiras de cigarro'', acrescenta. O The Wailers pediu oito latas de sopa de tomate Campbell's, que abriram no camarim e comeram gelada, além de latas de sardinha, suco de cenoura e um vidro de Listerine (enxaguante bucal). O grupo The Cult também procurou ser bem específico nos pedidos: limões Sicilianos, maçãs Fiji, bananas nacionais, leite de arroz, sabonete orgânico e chá twining redding.
A empresária cultural Verinha Walflor, 57 anos, conta que não costuma ter esse tipo de problema. ''Quando acho a coisa muito absurda, descabível, negocio com o empresário. Comigo não tem esse tipo de situação e sempre saem todos felizes. O que eles pedem sempre é um bom uísque, um bom vinho. Essa época de exageros já passou'', opina ela, que calcula ter produzido cerca de 600 eventos entre shows de artistas da MPB e apresentações de orquestras e companhias de teatro e balé.
''Não digo amém para tudo. Parto do princípio que a pessoa não vem para comer e beber, mas para trabalhar. Não me venham pedir TV de Plasma para ficar meia hora no camarim. Vamos ser sensatos'', pontua Walflor. ''A única coisa que me tira do sério é essa história de levar comidinha e bebida em sacolinha do camarim. Acho feio, condenável e uma falta de educação tremenda. O que organizamos para o camarim é para ser consumido antes e na hora do show. Exigir três garrafas de uísque para depois levar na sacolinha para o hotel é uma indelicadeza, uma deselegância'', conclui ela. (F.G.)

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