Artistas de farda
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de agosto de 2007
Denise Ribeiro<BR>Equipe da Folha 
Como bombeiro estou salvando outras pessoas e cantando estou salvando a mim mesmo. É assim que o sargento Roberto de Paula Trindade, bombeiro há 25 anos, explica como é conciliar a carreira militar com a arte. Assim como Trindade, profissionais acostumados à rotina e à disciplina de um quartel também encontram na atividade artística uma forma de se redescobrir.
Foi o que aconteceu recentemente com o capitão da Polícia Militar Adonis Nobor Furuushi, de 41 anos. Convivendo com as fardas desde os 10 anos, quando entrou para o colégio militar, o capitão Adonis diz que agora está transitando para o final de uma carreira e o início de uma nova vida. Se dizem que a vida começa aos 40, a minha começou no palco, comemora.
Durante o Festival de Teatro de Curitiba, em 2006, o capitão assistiu a algumas peças e se encantou. Fui cumprimentar os atores e eles me convidaram para fazer aula. Eu nunca tinha pensado em fazer curso de teatro e acabei me inscrevendo, conta. Desde então, ele se diz cada vez mais envolvido com a produção teatral e com uma nova forma de ver a si próprio. Estou aprendendo a viver a minha vida de um jeito diferente. Descobri que posso ser outra pessoa e muitas outras. Quando você estuda o papel acaba enfocando a vida novamente através de outros olhos, explica. Quando um militar tira a farda ele é um civil. Eu vi que eu não sou só um civil. Sou uma pessoa com muitas possibilidades. Se descortinou um universo através dessa experiência que eu tive. Descobri um monte de coisas minhas que eu não sabia que estavam aí, talvez porque nunca tivesse aberto essas portas, completa.
Já no caso do sargento Walmir Weber, bombeiro há 19 anos, o primeiro estímulo à produção artística veio da família. Os tios eram desenhistas amadores e desde a adolescência Weber fazia desenhos. Mas só depois da carreira já consolidada no Corpo de Bombeiros é que ele decidiu aperfeiçoar a vocação para a arte. Hoje, aos 38 anos, Weber é aluno do curso de escultura da Faculdade de Belas Artes do Paraná e conta que se surpreendeu com a experiência no curso. A arte hoje me serve como uma válvula de escape para um trabalho rígido e estressante. Quando estou na faculdade esqueço todos os problemas e até os riscos que a gente passa. Não fui em busca disso, quando estava lá é que me dei conta.
Na apresentação dos alunos no início do curso a profissão de Weber foi a que mais chamou a atenção dos colegas. Vêem o bombeiro como um cara grosseiro. O pessoal jamais ia esperar que um bombeiro fosse fazer arte. Agora o sargento quer aliar as duas atividades que desenvolve e está preparando um projeto para trabalhar nas esculturas a temática da missão do bombeiro.
A vivência da arte em família também foi o que motivou o sargento Roberto de Paula Trindade, bombeiro há 25 anos, a não desistir da música. Trindade arriscou as primeiras notas no violão aos 13 anos. Por uma década cantou com o irmão e desde 1999 mantém uma dupla sertaneja com o mesmo parceiro. Durante cinco anos Trindade também cantou ao lado de outro bombeiro. Não sou instrumentista, sou cantador, daqueles caipiras mesmo. Aprendi a tocar violão observando meu pai e meus irmãos, conta.
Quando recebeu o convite para substituir o parceiro de Trindade na dupla Roberto de Paula e Paulinho, Paulo Sérgio da Silva, ponderou. O esquema do bombeiro é muito rígido. Pensei: será que vai dar certo?, lembra. Então Silva, que é motorista do transporte coletivo de Curitiba, encarou o compromisso de Trindade com a profissão como um sinal de responsabilidade e aceitou o convite. A gente, que gosta, passa dificuldade mas não desanima, justifica.
Nas horas de folga do trabalho Trindade dedica-se totalmente à música e gostaria de ter se dedicado exclusivamente a ela desde mais novo. Mas com a necessidade de ter uma fonte de renda, entrou para o Corpo de Bombeiros, atraído pela chance de estabilidade na carreira profissional. Mesmo satisfeito com o trabalho como bombeiro, a música continuou sendo a grande paixão. Quero cantar e tocar violão até morrer, afirma.


