‘‘O sofá estava dando sopa’’, justificou o jovem José Nogueira Neto ao seu pai para explicar o ato de retirar uma ripa de pinho do móvel da sala para fazer o braço de seu primeiro violão, aos 24 anos. ‘‘Ah, já estava um tanto gasto também’’, lembra, entre risadas. Neto, técnico em informática, e hoje com 37 anos, fez dez violões, mas começou a vida de luthier ocasional mais cedo, aos 14, quando construiu, em casa, uma bateria.
  O pedal ele fez de madeira, mas não deu muito certo. ‘‘Uma bateria é até mais fácil de construir do que um violão. Foi só medir o diâmetro das peças e fazer igual.’’ Neto tem duas no currículo, uma coberta de fórmica branca e outra preta, a qual ele tem certeza que funcionou, pois o barulho incomodou os vizinhos. Ele conta que seu tio gostou tanto que lhe presenteou com o prato, a parte que faltava. Na mesma época, fez, para o irmão mais novo, uma guitarra com circuitos retirados de um instrumento velho e sobras de mogno que conseguiu em uma madeireira.
  Em 1995, ano em que decidiu fazer um violão, já tinha tocado em baile e barzinhos. De moleque, aprendeu bateria de ouvido, baixo e como cantar. ‘‘Já tinha o dom da arte, é algo que quase nasce com a gente. Gosto de desenhar; faço rostos.’’ Resolveu, então, descobrir como era o instrumento por dentro. Para não ter de desmontá-lo, pegou uma lanterna, um pequeno espelho, tirou as cordas e, pelo orifício, examinou o corpo. ‘‘E descobri que tem uma armação por dentro que influencia o som.’’
  Foi aí que retirou um pedaço do sofá da sala. Andando na rua e vendo o fundo de um guarda-roupas, Neto pensou: ‘‘Dali sai um violão’’. E saiu. Mas o compensado, grosso demais, não deu um som bom. Foi somente nas experiências seguintes que aprimorou a qualidade de seus violões, sempre vendidos a preços módicos, de R$ 70 a R$ 80. ‘‘Não vale à pena entrar nisso como negócio. Tem muita empresa vendendo no mercado a R$ 150. E eles fazem muito mais rápido do que os 15 dias que levo’’, comenta.
  Desde então, usou um pouco de tudo nos dez violões que fez. A arte da madeira descobriu na prática e na leitura de um livro sobre marcenaria. Para entortar, molha a madeira e depois utiliza um ferro de passar roupa. O único outro aparelho elétrico que usa é uma furadeira. Em sua criação mais recente, um violão concluído há dois anos, fez o braço de cama de casal e o acabamento com persianas (da casa da mãe), plástico de capinha de CD para as marcações das notas além de osso de músculo. ‘‘Eita coisa difícil de cerrar. Para o corpo, comprei compensado bem fininho. O som ficou incrível. Além de bonito, parece desses que se compra em loja.’’
  Agora, um piano
  Ao acordar, a aposentada Cezarina Tissi, 74, faz o sinal da cruz, reza uma Ave Maria e liga o rádio. Assim ela descreve a sua relação com a música. No ano passado, ela comprou o último violão produzido por José Nogueira Neto, a quem Cezarina conhece há 15 anos. ‘‘Não comprei; praticamente ganhei. Ele me deu quase que de presente por R$ 50.’’ Morando a poucas quadras do luthier ocasional, ela pensou em aprender a tocar o instrumento, mas Neto, bastante ocupado, acabou não dando as aulas prometidas.
  ‘‘Ele é um artista. E tem a quem puxar tanto no lado da mãe quanto do pai’’, lembra a fã incondicional. Cezarina não sabe do que é feito o violão que tem em casa – cujos componentes já foram descritos neste texto –, sabe apenas que Neto escolhe muito bem as madeiras que usa. Ele, por sinal, antes de dedicar-se à informática e ser músico, já foi office boy, cobrador de ônibus, auxiliar de cobrança fiscal e locutor de bingos.
  Hoje, Neto sonha com um emprego fixo. A longo prazo, seu maior desejo é construir, em casa como fez com as duas baterias, guitarra e dez violões, um piano. ‘‘Já andei estudando como fazer. Dá trabalho, mas não é impossível.’’ Enquanto ele fala, abre o tampo do piano que tem na sala para explicar parte de seus planos. O irmão mais novo, Luiz Fernando, 29, que acompanha, não hesita. ‘‘Quando o bicho coloca um desafio na cabeça, ele faz.’’
  Antes, porém, Neto
tem dois compromissos de pequenas dimensões.
O filho Luiz Gustavo, 9,
quer um violão preto.
Maria Eduarda, 4, exige um rosa.

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