Hilton Castelli teve de emancipar seu filho Tom, então com 17 anos, para que pudessem abrir uma empresa juntos. A Dicastelli's completou 20 anos em maio tendo produzido mais de mil instrumentos costumizados, artesanais e únicos. Herbert Vianna guarda uma guitarra da marca em seu deck, a banda Skank comprou um baixo no começo da carreira e os Demônios da Garoa pediram um violãozinho flat, dos fininhos. O hall da clientela famosa não pára por aí e continua entre músicos de talento de Curitiba, como Mario Conde.
''Fazemos somente sob encomenda, não temos estoque. Hoje, é metade artesanal e metade feito a máquina'', comenta Hilton. Uma guitarra produzida por suas mãos custa a partir de R$ 2,8 mil. O instrumento mais caro de todos é o que está projetando agora, uma guitarra acústica, a pedido de um médico, e que deve custar entre R$ 6 mil e R$ 7 mil.
O nicho do mercado é bastante específico. ''Se a pessoa for inexperiente, o preço assusta. Compra quem tem ambição e conhece música. Quem quer uma guitarra de um jeito único, já sabe quanto vai custar'', diz. O detalhamento é tamanho - ''O músico vai sentar aqui e falar tudo o que quer'' - que um orçamento pode levar duas horas.
A produção em massa nunca foi a pretensão de pai e filho. Eles trabalham juntos com quatro funcionários. ''Não há como competir com os salários dos chineses e coreanos para fabricar 20 instrumentos por dia. Nosso perfil é fazer um bom trabalho.''
Hoje, a empresa de luthieria com mais tempo de mercado na cidade, a Dicastelli's vê, distante, os dias dos primeiros passos. ''Batemos muito cabeça. E muita gente achou que não ia dar em nada'', lembra Hilton, hoje com 68 anos.
E o começo, qual foi a motivação? ''Olha, eu estava com dificuldades de voltar ao mercado de trabalho e estava em dúvida entre ser empregado ou abrir uma empresa. O Tom, meu filho, havia feito um protótipo de uma guitarra com os amigos; acho que foi isso. Ele sempre teve o dom natural para estudar as técnicas da guitarra'', completa o Castelli pai, orgulhoso.
Fila de espera
Quem pedir uma guitarra hoje para a W:G Custom Guitars, há três anos em atividade em Curitiba, tem de esperar de quatro a seis meses para receber seu instrumento customizado. ''Mas vale a espera. Você tem um instrumento de ponta'', afirma o dono da empresa, Wagner Peixoto, 33, na luthieria há 19 anos.
Ele começou cedo, aos 14, com seu tio Osny Zambuzzi, dono da Artwood, que também produz guitarras na cidade. ''Como a minha empresa, só tem outras duas que fazem instrumentos neste padrão: a própria Artwood e a Dicastelli's'', opina Peixoto. As dele custam a partir de R$ 2,5 mil.
O instrumento mais peculiar que já fez foi uma guitarra dupla para o músico Daniel Ruberti que custou R$ 8 mil. ''Mas é uma parceria. Nós patrocinamos ele cedendo o instrumento. Como contrapartida, criamos o modelo com o nome do músico, que vira nossa divulgação entre seus alunos e conhecidos. A qualidade do próprio instrumento vira a nossa propaganda.''
Há, por exemplo, o cavaco ''Anderson Leonardo'', do vocalista do Molejo, por R$ 3,7 mil, o ''Boris'', do baixista do grupo de samba Boca Loka, por R$ 6,5 mil, e os modelos de guitarra ''Airton Mann I'' (R$ 4,3 mil) e ''II'' (R$ 3,5 mil), do professor de música que dá aulas em Curitiba.
Os preços são altos, mas a qualidade, segundo Peixoto, é imbatível. ''Mesmo os gringos não competem com os instrumentos que estamos fazendo em Curitiba. A diferença é mais gritante, pois uma guitarra que faço custa 30% de uma similar customizada importada.''
Com os slogans, ele brinca com as palavras. ''A gente faz tão bem que joga o molde fora'' e ''Feito por quem entende para quem conhece''. Hoje, o número de concorrentes cresceu. ''Antes, a gente dominava sozinho. Parece que, agora, a turma descobriu a profissão. Admito, luthieria dá dinheiro. Mas é muito difícil e são poucos os que perduram.''
Como músico, Peixoto diz que somente arranha algumas notas. A experiência com madeira vem desde a infância. Aos oito, carregava cacau em Alta Floresta (MT), na fazenda de seu avô. ''Foi duro, não tinha tempo para jogar futebol, como meu filho. Mas aprendi muito com madeira nesta fazenda.''
Curso superior
No próximo vestibular, 75 candidatos disputam as 30 vagas da primeira turma de ''Tecnologia em Construção de Instrumentos Musicais - Luteria'', curso oferecido pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). A média ficou em 2,5 por vaga.

Instrumento em sete passos

Se fosse fácil fazer uma guitarra, seria só seguir as dicas a seguir de Wagner Peixoto, da W:G Custom Guitars. Um profissional leva, em média, 15 dias para produzir um instrumento nestes moldes:

1 - Ir a uma madeireira e selecionar a madeira mais adequada. Para um modelo Strato, o mais conhecido, Wagner recomenda o corpo de cedro, braço de marfim e a escala de jacarandá. Além de comprar os acessórios como trastes, tarraxas, pontes e captadores entre demais componentes eletrônicos. Para os padrões de qualidade que Wagner segue, todos são importados. Porém, ele lembra, há opções nacionais. ''Somente a madeira que uso é brasileira.''

2 - Com o molde, desenhar o corpo e o braço, cortar e lixar as laterais com lixas de mão grossas.

3 - No braço, embutir um tensor de metal e, sobre ele, a escala. Moldar, ''shapear'' o braço, para receber as cordas. Marcar as medidas padrão de escala (há réguas específicas que auxiliam neste ponto) para colocação dos trastes.

4 - Marcar braço para colocação no corpo. Alinhar a guitarra para receber os captadores e fonte. Esculpir cavidade no corpo para embutir os componentes eletrônicos.

5 - Com lixas finas, polir o corpo e aplicar resina de poliéster para proteger e fortalecer a madeira. Deixar secar por 48 horas.

6 - Lixar novamente com lixa fina antes de aplicar tinta automotiva, ou, se preferir um instrumento na cor da madeira, utilizar diretamente o verniz (passo seguinte no caso de aplicação de tinta). Após secagem, lixar o verniz debaixo d'água com uma sequência das lixas 1200, 1500 e 2000. Polir na sequência.

7 - Colocar os componentes faltantes. É a hora da montagem, mas a ordem é indiferente: a única coisa a lembrar é que as cordas devem vir por último. Momento de fazer a regulagem final. Daí é só tocar.

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