ARTE NA GASTRONOMIA - É possível comer com prazer e sem culpa
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sábado, 23 de setembro de 2006
Fernanda Borges<br> Reportagem Local 
Diferentemente dos tempos das cavernas, alimentar-se hoje não é só uma necessidade física. A música do grupo Titãs já revela um pouco a alegria que o homem sente em comer. ''A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte'', diz a letra de Arnaldo Antunes.
Muitas pessoas buscam nos alimentos uma maneira prazerosa de reforçar vínculos de amizade e de comemorar. A gastronomia passou a ser considerada ciência a partir do momento que deixou de ser um segredo exclusivo do cozinheiro. Já nas cavernas, os homens foram aprendendo a cozinhar para acrescentar sabor e tornar os alimentos mais digeríveis.
Professor de gastronomia da Universidade Norte do Paraná (Unopar), o chef Djalma Araújo explica que as primeiras refeições surgiram da necessidade de partilhar os animais caçados para que fossem comidos antes que estragassem. ''Os gregos e romanos buscavam o prazer, o visual dos alimentos. Os romanos tinham gente trabalhando para eles, então, sobrava tempo para pensar em uma cozinha rica e variada. Os gregos eram especialistas em pães, possuíam os melhores padeiros. Já na Idade Média, a comida era pesadíssima'', explica Araújo.
Os hábitos à mesa foram bastante alterados com o decorrer do tempo. No Renascimento, cresceu a preocupação com a qualidade dos alimentos. O professor conta que naquela época a arte se misturava com a gastronomia. ''Há a influência greco-romana do comer pelo prazer. Mas o mais comum eram os jantares exuberantes servidos com comidas figurativas como banquetes de açúcar, onde várias esculturas feitas de açúcar serviam só para serem observadas''.
Araújo salienta que a cada grande catástrofe que acontecia no mundo, mudanças significativas nos hábitos alimentares também ocorriam. Segundo ele, foi durante a 1 Guerra Mundial que surgiram os primeiros restaurantes, fazendo com que as mulheres deixassem de cozinhar em casa. ''A comida era distribuída de graça para os soldados com o nome de comida restauradora. Com isso, os estabelecimentos que a forneciam passaram a ter cardápios próprios e atender pessoas que saíam de casa só para ir até o local comer com a família'', diz.
''Já culinária brasileira tem influências principalmente africanas, indígenas e européias. De Portugal, veio a apreciação dos brasileiros por doces. Dos índios, veio a importância da mandioca, que faz parte da culinária típica de quase todos os Estados'', lembra Djalma.
Em sintonia com as tendências gastronômicas do momento, o homem busca cada vez mais qualidade do que quantidade de alimentos. Para Araújo, isso se deve, acima de tudo, pela preocupação com a estética. ''A relação comida e saúde é um pensamento muito moderno. As pessoas ainda se preocupam mais com a beleza do que com a saúde. Com a descoberta dos carboidratos, dos açúcares e da gordura, o homem vê que não precisa comer tanto. Por isso, um restaurante que não se preocupa com a qualidade não consegue se manter'', ressalta o professor.
Pensando nos valores nutricionais e calóricos que a boa gastronomia pode proporcionar às pessoas, a Folha convidou dois chefs de cozinha para preparar dois pratos - um calórico e outro light - para serem servidos a profissionais da saúde que avaliaram o cardápio. O almoço aconteceu no Brickell Key, no último dia 14, e contou com a presença da nutricionista Elaine Melo e do cardiologista José Eduardo Siqueira.
O chef Márcio de Souza, que preparou um Congro Vegetariano, disse ter escolhido o peixe por ser uma carne nobre e saudável, já que tinha sido convidado a fazer um prato light. O chef Júlio Celso Moraes de Oliveira, que preparou o Medalhão Grelhado com Batatas e Pimentões ao Porto, reforçou ainda mais o prato, com alguns detalhes na hora do preparo. ''Inicialmente pensei na carne de pato, que é bem calórica, mas acabei optando pelo filé mignon bovino e temperei com vinho do Porto. As batatas foram salteadas no tutano de boi, supercalórico'', explica Júlio.


