A perda de um ente querido, a promoção no emprego que não veio, a briga com um familiar, problemas. Para muitos, sinônimo de reclamações e desistência. Para outros, após um processo de amadurecimento, é tempo de recomeçar.
Criado há sete meses, o grupo ''Amigos na dor'' surgiu após uma conversa entre a psicóloga Maria Cecília Malaquias e a psicopedagoga Iara Coutinho Costa. ''Outras experiências em grupo nos mostraram que a terapia em conjunto tem efeito mais rápido. A partir do momento em que você se identifica com a dor do outro, você percebe que não está só''.
Inicialmente, os integrantes do ''Amigos na dor'' assinam um contrato de silêncio. ''O contrato deixa claro que, da mesma forma que a pessoa não quer ser exposta, ela não pode expor o que foi conversado'', afirma Iara. Feito o contrato, as pessoas apresentam-se e dizem qual motivo as levou ao grupo.
As reuniões, que acontecem todas as segundas-feiras à noite, duram duas horas. A partir de então, há a interação e troca de idéias. Não há um ritual a ser seguido. ''As dinâmicas são diferentes. Temos relaxamento, trabalho com argila, alongamento, pintura, massagem, o ritual varia muito'', ressalta Iara.
A advogada Lucilene Coutinho de Medeiros, de 43 anos, compara a perda do marido, vítima de câncer, a uma maratona. ''Foram oito meses de sofrimento, precisei ser muito forte nesse período, não sentia cansaço, não sentia fome, não sentia sono. Quando ele faleceu, a maratona acabou. Cruzei a reta e desmontei''.
Sem forças para prosseguir, Lucilene, que acumula um histórico de perdas - perdeu a mãe aos 5 anos, em um acidente; a avó; e, posteriomente à morte do marido, o avô -, estava entrando em um processo de perda de identidade. A aproximação com o grupo veio sete meses atrás, quando estava em casa, diante da tv. ''Estava mudando de canal quando vi as explicações sobre o grupo em um programa. Decidi ligar, foi um pedido de socorro''.
Após ser aprovada na seleção, Lucilene passou a frequentar as reuniões. ''No início, mal conseguia falar. A partir do momento em que conheci outras pessoas com problemas, iguais ou piores do que os meus, vi que não estava sozinha, que não era a única. Desde então, tomei uma decisão: deixar o papel de vítima e ser feliz''.
O que era desejo converteu-se em realidade. ''Voltei a trabalhar com imóveis, voltei a estudar para prestar concurso, faço atividade física, pintei o cabelo, resgatei planos e projetos de vida que tinha deixado para trás. Até dirigir na estrada, coisa que não fazia, eu dirigi. Atualmente, essas pequenas coisas me dão alegria. Redescobri a felicidade'', revela a advogada, que tem uma filha de 14 anos e está namorando, há um mês.
Hoje, adepta do ''perder faz parte da vida'', Lucilene ressalta que o aprendizado não foi nada fácil. ''Reaprendi a viver. Era feliz ao lado de meu marido, mas achava que tudo havia acabado naquele momento. No grupo, rindo junto, chorando junto, amadureci o suficiente para saber que não poderia passar o resto da vida me arrastando, como uma morta-viva'', finaliza.

Serviço
Grupo ''Amigos na dor'': Avenida Bandeirantes, 700; mensalidade custa R$ 100; (43) 3324-1023.

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