Arqueólogos estudam objetos de antiga redução jesuítica
No silencioso encontro dos rios Paranapanema e Santo Inácio, a história dos padres da Companhia de Jesus desembarca na região em 1612, ano da fundação da Redução de Santo Inácio, período em que quase todo território paranaense estava sob dominação espanhola - prólogo da dramática fuga dos índios.
A cruz jesuíta, que atualmente demarca a Estrada das Ruínas, quando deixamos a PR-340, ergue à frente dos visitantes a lembrança da República Guarani, que não sobreviveu aos ataques bandeirantes, deixando seus restos no sítio arqueológico de Santo Inácio.
Uma saga narrada nas Cartas Ânuas, documentos internos dos jesuítas dirigidos ao superior geral em Roma, e que pode também ser interpretada por historiadores e arqueólogos, que se debruçam sobre os objetos encontrados facilmente por quem visita a redução.
Ao caminharem pelas trilhas em direção ao Rio Paranapanema, onde está sepultada a maior parte das ruínas, que podem ser conhecidas a pé enxuto quando as comportas da usina estão abertas, estudiosos e visitantes vão em direção ao Brasil colonial. O Paraná se resumia a apenas duas vilas, a Cidad Real Del Guairá, e Vila Rica do Espírito Santo, onde hoje fica a cidade de Fênix (63 quilômetros a leste de Campo Mourão).
''Os documentos dos padres jesuítas sempre falavam da Redução de Santo Inácio. Os religiosos vinham pelo Rio Paraná, acompanhando os guaranis. Aqui tivemos um aldeamento grande. A comunidade indígena escolheu este lugar por ser o ponto mais alto da região na foz do Rio Santo Inácio. Primeiro porque tinha um rio maior e com fartura de peixes, no caso o Paranapanema, e um afluente que poderia suprir a necessidade de água do grupo'', explica o professor Lucio Tadeu Mota, mostrando as ruínas de uma igreja, onde o salvamento de objetos encontrados no sítio pelo arqueólogo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Igor Chmyz, por ocasião da inundação da barragem de Taquaruçu, encontrou enterrada no que seria o interior do templo, a ossada de um padre de cerca de 25 anos, que teria morrido de tuberculose.
A vala onde estava sepultado o religioso é uma das atrações históricas do sítio arqueológico.
Mota explica que os tijolos e telhas espalhadas pelo local indicam o desmoronamento da igreja, que não escondeu a rotina no aldeamento, desenterrada pelas pesquisas. ''Em Santo Inácio chegou a ter até 500 habitantes. Aqui os índios cultivavam roça de milho e trabalhavam na olaria'', comenta o professor.
O rio que abençoava com comida e água os nativos e religiosos também os salvou da espada dos bandeirantes. O pacto entre os índios e os jesuítas, que os protegiam dos fazendeiros que queriam vestir neles a condição de escravos, não resistiu a investida da força bandeirante, que em suas fileiras tinha Borba Gato.
Historiadores calculam que de cada 100 índios aprisionados, apenas um servia para o trabalho escravo e a maioria morria na viagem até São Paulo, sendo que outros não resistiam às doenças.
A partir de 1628, exércitos bandeirantes atacaram as reduções do Guairá. Aproximadamente 100 mil índios reduzidos não resistiram, restando apenas 12 mil aldeados em Santo Inácio e Nossa Senhora de Loreto.
Em proporções épicas, os nativos sobreviventes embarcaram na proteção do padre Antônio Ruiz de Montoya e, em 1631, formando a lendária esquadra de 700 canoas desceram o Paranapanema em direção ao Rio Paraná, inundando a história, com um episódio que poucos paranaenses têm conhecimento.(F.L.)





