Atrasado, entro de fininho. Está tudo escuro. Ou quase, pois um monitor ligado no fundo da sala revela alguns vultos.
Diante do computador, que está conectado em autofalantes, uma figura aumenta ainda mais o volume da música. O tema, entre o tribal e o new age, não dá chance para outros ruídos. E há pelo menos meia dúzia de corpos espalhados pelo chão, em estado meditativo.
Espero ser visto e me identifico, sussurando, para o sujeito do som, que faz o mesmo. É Alexandre Magno, o facilitador do grupo, como eu suspeitava. Rapidamente recebo um kit com esteira e travesseiro. Sem muita opção, contrario minha filosofia de trabalho e resolvo participar do ritual.
Alexandre começa a falar. Na verdade, continua a guiar a turma por uma viagem mental induzida. A esta altura do campeonato, cada um está na sua canoa, saindo de um túnel em direção à floresta.
Logo um sábio aparece na cena, e somos incentivados a fazer perguntas a ele - sobre nossas vidas, nossos problemas. Antes de pegar o caminho de volta, ganhamos um presente. Como caí de paraquedas na história (e já não tenho muita paciência para esse tipo de atividade), fui incapaz de perguntar qualquer coisa.
Alexandre acende as luzes e todos começam a se recuperar. Menos o meu colega do lado, com quem devo trocar impressões sobre a jornada. Quando ele desperta, percebo que é o único participante maduro - na casa dos 50 anos - de um grupo surpreendentemente jovem.
Desvio do assunto e descubro que Gilson (nome fictício) foi cozinheiro e hoje cuida de casa enquanto a mulher trabalha. O ex-chef também já experimentou de tudo no universo new age, do reiki ao Santo Daime. E apesar de este ser apenas o seu segundo encontro com os "guerreiros", ele garante que "a coisa já bateu".
Em seguida, formamos um círculo em volta de objetos que representam os elementos da Terra, ou algo que o valha. Sentados, ouvimos Alexandre ler uma passagem de um livro sobre os costumes dos índios norte-americanos. Um papo sobre arcos, flechas, tambores, instrospecção, sonhos...
"Quando o homem alinha visão e ação, surge sua missão. E todo o guerreiro deve ter uma missão", conclui o facilitador, para depois dividir a turma em dois grupos de quatro pessoas. Agora, cada um tem 30 minutos para resumir sua trajetória do nascimento aos 14 anos.

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