Aprendendo na faixa
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 25 de setembro de 2008
Marcela Rocha Mendes<br>Equipe da Folha 
Fazer um curso de línguas ou de dança é caro, certo? Nem sempre. Com boas iniciativas de instituições curitibanas, alguns privilegiados têm a oportunidade de aprender essas duas artes sem gastar nada.
Cerca de 80 bolsistas da escola de dança Oito Tempos podem aprender os diversos ritmos de dança de salão se se comprometerem a um mínimo de freqüência e aceitaram ser o par dos alunos que vão desacompanhados à escola. De acordo com a coordenadora do grupo de bolsistas da escola, Fabiana França, para entrar no programa é preciso fazer uma audição e entrevista que avaliam a coordenação motora, alongamento e disponibilidade da pessoa.
Os bolsistas, com idades de 16 a 60 anos, ficam de quatro a 11 horas/aula na escola e também fazem aulas específicas para aprofundar o conhecimento de dança. Para Fabiana, o legal é que eles acabam aprendendo muito mais depressa que os alunos regulares, justamente por fazerem mais aulas durante a semana. Do projeto já saíram alguns professores da escola, inclusive a coordenadora do programa.
Cleandro Patussi se divide entre o tempo na escola de dança e a faculdade de medicina. Ele conta que soube da bolsa através de um cartaz e seguiu o irmão que também se inscreveu. Abro mão de muita coisa para estar na escola, mas os amigos entendem, justifica.
A vontade de Guilherme Schuster aprender a dançar é tão grande que chega a passar 15 horas semanais em sala de aula. Para mim, a dança é muito relaxante. E a minha escala (os bolsistas são dividos em escalas) encaixa perfeitamente com as outras atividades, não deixo de fazer nada, conta.
Isabella Villar, 16 anos, é a caçula do programa e gosta de poder fazer aulas de vários ritmos sem ter que pagar. Às vezes acontece de eu querer fazer uma aula, mas sou solicitada em outra sala. Mas, em geral, dá para aprender bem tudo. A estudante, que considera a possibilidade de se profissionalizar na dança, já está há um ano e nove meses na escola e acredita que a atividade é quase um emprego, por conta da responsabilidade que assumi. Mas acho que tem mais liberdade se precisar falta um dia ou outro.
Italiano
Cento e cinqüenta crianças e adolescentes moradores da Vila das Torres têm a oportunidade de aprender uma língua estrangeira que dificilmente poderiam se as aulas não fossem gratuitas. Através de uma parceria do Centro de Cultura Italiana (CCI) e a Fundação de Ação Social (FAS) da Prefeitura de Curitiba, elas aprendem a língua, a cultura, músicas e danças italianas.
As crianças fazem parte do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) do Governo Federal e fazem atividades de contra turno na Praça Plínio Tourinho. Mas, às quartas-feiras elas são levadas à escola, com sede na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná onde são aproximadas de um mundo distante do delas. Quando deixam o PETI, elas continuam na escola como agente jovem.
Para Deysiane Cristina Mendes Lopes, 11 anos, o gostoso é conversar com a professora. Fazendo aulas há dois anos, ela diz que já se vira. Acho que mais uns dois anos na escola eu vou saber bem. Sou muito dedicada e estudo o meu material quando estou em casa, conta. Ela conta que gosta de ouvir sobre a cultura da Itália e sonha em conhecer o país.
De acordo com Elaine Schomckel, assistente social da FAS, as crianças decidem se querem fazer as aulas e a opção é um sucesso justamente por ser uma atividade diferente. Se não existisse esse programa, elas provavelmente nunca teriam a oportunidade de aprender esta língua, afirma. Elaine acredita que outro ganho é por elas, em geral muito carentes, saírem do seu ambiente habitual e vislumbrarem um futuro diferente.
Luis Fernando Cardoso, 13 anos, já sonha em ser cantor de música italiana. Quero compor também, diz. O garoto, que só tinha ouvido a língua em um filme, quer conhecer Milão e explica que já sabe falar cosi, cosi (mais ou menos).
Luciana Zucchi Gorlin, professora e colaboradora do projeto, comenta que nem todos os alunos aproveitam como devem a chance, mas considera que cada um que aprende um pouco é uma vitória.
De acordo com a coordenadora do CCI, Conceição Barindelli, as crianças também fazem apresentações de canto e dança (hip-hop em italiano) para mostrar à comunidade um pouco deste trabalho, conta. Elas já se apresentaram em hospitais, no bairro onde moram e na Casa do Papai Noel.
Outra vitória do programa foi levar um aluno para uma viagem de um mês na cidade de Belforte AllIsauro, região de Marche. Foi único. Uma criança que nunca tinha ido a um shopping viveu a cultura italiana por um mês e aprendeu bem a língua, conta.
A viagem foi feita em 2005, mas de acordo com Conceição, que recebeu um título de cavalliere ordem da estrela da solidariedade do governo italiano, a escola tem planos de enviar outra criança aquela com maior nota no próximo ano.
Segundo Conceição, apesar do público-alvo do programa ser a comunidade vizinha à PUC, se alguma outra criança quiser participar, os pais ou responsáveis podem procurar a escola no início de 2009, durante o período
de matrícula.


