São Paulo- Um dia o despertador não vai mais tocar no mesmo horário. E você não vai precisar tomar o café com pressa, como sempre fez. Nem vai enfrentar o trânsito, logo de manhã, especulando sobre com que cara seu chefe vai lhe receber. Também não vai haver mais expediente nem hora extra nem prazos a cumprir. O Seu Manoel da copiadora e a Dona Marly do cafezinho talvez você não veja nunca mais. Só vai restar o salário. Ou um pedaço dele. E ainda um bom pedaço de vida para viver.
No drama ''Confissões de Schmidt'', de Alexander Payne, o sexagenário Warren Schmidt, personagem de Jack Nicholson, aposenta-se a contragosto e precisa reaprender a lidar com o tempo. Na produção nacional ''O Outro Lado da Rua'', Fernanda Montenegro vive Regina, uma aposentada de 65 anos, moradora de Copacabana, que vira informante da polícia para se distrair do tédio e da solidão. ''Se não houver preparo anterior, a aposentadoria pode representar uma perda social significativa'', afirma a psicóloga Valéria Bellini Lasca, mestre em Gerontologia pela Unicamp. ''Perda de amigos, de cidadania, de auto-estima'', completa. ''É importante planejar o momento, definir uma segunda carreira'', diz. Não precisa ser um emprego na polícia. Pode ser trabalho voluntário ou um hobby.
A psicóloga Valéria, que está escrevendo um livro sobre o assunto para a editora Casa do Psicólogo, em parceria com a assistente social Eve Pekelman, tem feito entrevistas com anônimos e famosos que chegaram aos 60 com disposição. ''O que todas essas pessoas têm em comum é o fato de se manterem sempre ativas. Souberam substituir atividades que não podiam mais fazer por outras que também as agradam.''
No relógio do humor, isso faz diferença. ''É muito comum que a depressão em idosos esteja associada à aposentadoria'', diz o psiquiatra Cássio Bottino, coordenador do Projeto Terceira Idade (Proter) do Hospital das Clínicas (HC). E o problema afeta principalmente os homens. Como Warren Schmidt, muitos não investem em atividades paralelas ao trabalho ao longo da vida. ''Quando se aposenta, o homem não está habituado a ficar em casa e isso lhe imprime uma sensação de inutilidade e desesperança'', analisa o médico.
No cinema, assim que deixa o trabalho, Schmidt começa a viver como uma extensão da mobília. E a convivência em período integral com a mulher, dona de casa, potencializa sua rabugice. Enquanto isso, a filha do casal, ocupada em tocar a própria vida, também não sabe como lidar com esse novo pai. ''A família é a rede de apoio do aposentado. Tem de incentivá-lo a curtir essa fase, ajudá-lo a encontrar atividades substitutivas, que o façam se sentir útil'', orienta Valéria.
AMOR PRÓPRIO - O desânimo do recém-aposentado pode ser agravado pelo sedentarismo. ''Pessoas ativas tendem a ser menos tristes e ansiosas, melhorando seu relacionamento com outras pessoas'', afirma o geriatra e fisiatra José Maria Santarém, diretor do Centro de Estudos em Ciências das Atividades Físicas (Cecafi) da USP e da Federação Paulista de Musculação (FPM). Tem mais: a falta de exercício diminui progressivamente a aptidão física e eis mais um motivo de pesar. A inércia compromete aos poucos a mobilidade das articulações e o tônus muscular. Trata-se uma questão de saúde pública, já que a população mundial está envelhecendo. No País, os brasileiros com mais de 60 representam quase 10% da população.
O sedentarismo, como explica Santarém, também está relacionado a doenças como hipertensão arterial, diabete, obesidade e a alterações das gorduras do sangue, como o colesterol. O envelhecimento é um fenômeno biológico que não pode ser interrompido. ''Mas é possível envelhecer com saúde e boa capacidade funcional'', frisa o geriatra. A receita é velha (sem trocadilhos): atividades físicas regulares e boa alimentação.
A aposentada Helena Wiechmann pratica esse estilo de vida. ''Digamos que já passei dos 75'', diz ela, que tem 76. Dona de uma carreira criativa, ela trabalhou na Vera Cruz como assistente de produção e, mais tarde, traduziu filmes e seriados para a tevê. Há dez anos, parou, sem trauma. ''Gosto da sensação de estar disponível.''
Viúva há 20 anos, Helena tem dois filhos e três netos. ''De vez em quando, brinco de avó.'' Brinca mesmo: cuida deles quando sente vontade, sem compromisso. Helena é a integrante mais velha de um grupo de amigas sexagenárias. ''Elas são um pouquinho mais novas, mas nem parece'', diverte-se. Juntas, vão ao cinema, ao teatro, às compras. Mas o programa favorito é a reunião semanal no Restaurante Pasquale, em Pinheiros. ''A gente toma uma cervejinha e fala muita bobagem.''
Toda sexta, Seu Pasquale, o proprietário, reserva uma mesa para as freguesas veteranas. A comerciante aposentada Sônia Pacheco, 66, é outra integrante do quarteto. Os cuidados com a saúde redobraram após a aposentadoria, há dois anos. ''Eu me cuido muito.'' É verdade: pratica ioga e musculação. Com 2 filhos e 6 netos, Sônia está prestes a virar bisavó. ''Não sinto nenhum constrangimento por ter me aposentado, porque eu ainda me sinto muito útil.'' E isso é comemorado toda sexta-feira à noite, numa mesa para quatro do Pasquale.

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