Com uma população de 35 mil habitantes e ocupando uma área de 112 km2, às margens do Rio Paraíba do Sul, a cidade de Aparecida (SP) está longe de ser considerada pacata. Movidos pela fé, mais de oito milhões de romeiros - de acordo com dados do Santuário Nacional de Aparecida - dirigem-se todos os anos à ''capital mundial da devoção mariana'', lotando, principalmente nos fins de semana, as estreitas ruas da cidade, que foi construída sobre montanhas.
Conversando com diversos peregrinos, que chegam em ônibus procedentes de diferentes cantos do país, mas em especial do interior de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, é difícil encontrar alguma história que não relate o agradecimento de graças recebidas ou pedidos para a Padroeira do Brasil, simbolizada pela imagem negra de barro cozido encontrada por pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1777.
No último fim de semana, a reportagem da FOLHA foi até lá para ver de perto como a cidade está se preparando para receber o Papa Bento XVI, que chega à Aparecida no próximo dia 11 de maio, como convidado especial para a abertura da 5 Conferência Geral dos Bispos da América Latina e Caribe.
Mesmo acostumada a receber quase 200 mil pessoas a cada fim de semana e até 300 mil no dia 12 de outubro, feriado nacional dedicado à Santa, a cidade está ansiosa e ainda cheia de incertezas. Do prefeito aos taxistas, ninguém se arrisca a dizer quantas pessoas devem se dirigir ao Vale do Paraíba para ver de perto o papa alemão. A administração do Santuário Nacional diz estar preparada para receber 500 mil fiéis. No entanto, muita gente, como donos de hotéis, acha esse número exagerado.
A impossibilidade de prever o número de visitantes, causa outras incertezas. Até o momento, os vendedores ambulantes, que estão em camelódromos a céu aberto em volta da Basílica, local onde o papa vai celebrar uma missa campal, não sabem se estarão liberados para trabalhar durante os três dias que Bento XVI estará na cidade.
Os taxistas vivem a mesma incerteza. ''Sabemos que estão acontecendo reuniões, nas quais o pessoal da segurança discute se iremos ou não trabalhar, mas até o momento ninguém nos disse nada. Se nos permitirem, queremos trabalhar. No entanto, se realmente a cidade receber 500 mil pessoas fica impossível a nossa circulação. As ruas estarão entupidas'', explica o taxista João Batista da Costa, que transporta pessoas pela cidade desde 1971.
Da outra vez que Aparecida recebeu um papa - João Paulo II abençoou o Santuário em 1980 -, Costa já trabalhava como taxista. Baseado na experiência anterior, ele opina que o número de visitantes não deve passar de 300 mil. ''Quando o outro papa veio, falava-se tanto em superlotação da cidade que as pessoas ficaram assustadas e não vieram. Dessa vez está acontecendo a mesma coisa'', relembra.
Ao contrário dos taxistas e vendedores ambulantes, os 36 charreteiros que fazem ponto na Avenida Júlio Prestes, uma das principais entradas de Aparecida, já têm certeza de que não vão trabalhar no fim de semana em que Bento XVI estiver por lá.
Há 70 anos funcionando no local, o passeio de charrete até o Porto Itaguaçu, onde a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi encontrada, já é tradição e custa R$ 5,00 por pessoa. Mas, durante a visita papal, quem quiser visitar o lugar onde começou a devoção à Santa, vai precisar arranjar outro meio de transporte. ''Fizemos diversas reuniões e decidimos, por nossa conta, não trabalhar. O trânsito vai estar muito tumultuado e queremos colaborar'', explica Roberto Carlos Coelho, presidente da Associação dos Charreteiros.

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