‘‘louca, brilhante, sem fôlego rua-vício, rua-oximoro de não ir à parte alguma
de uma miséria ancestral a cruz machado terminaao desenlace da esquina
nos pés de uma catedral.’’
  Pouco antes dos versos de abertura de seu poema ‘‘Balada da Cruz Machado’’, reproduzidos acima, o poeta curitibano Rodrigo Madeira, 29 anos, cita o escritor francês Charles Baudelaire. ‘‘Tem piedade, satã, desta longa miséria’’. A noite, na rua-símbolo do tráfico de drogas e da prostituição no centro de Curitiba, é representada de maneira poética, mas sem concessões pelo jovem que ganhou o prêmio Helena Kolody de Poesia, em 2006.

‘‘alguém além de Deus e da polícia e taxistas e putas e vigaristas cafetões e travestis sabe que depois das 20 nas calçadas do acinte beijam latas os guris?’’
  O crack, fumado nas latas citadas pelo poeta, é um dos temas centrais na adaptação, também poética, que o cineasta Terence Keller, 30, faz do texto do amigo Madeira. O filme, também batizado de ‘‘Balada da Cruz Machado’’, foi um dos oito projetos aprovados no Edital de Vídeo Digital, do Fundo Municipal de Cultura, em 2007, recebendo R$ 10 mil para a sua execução. ‘‘Minha intenção é apresentar essa realidade e não um juízo de valores’’, explica Keller. ‘‘Gostei do poema e quero dividir isso com as pessoas. E como, infelizmente, as pessoas não lêem poesia, o audiovisual é o meio que eu acredito que possa alcançar um público maior.’’

‘‘pedra pedra pedra pedra quem dentre vós que estiver sem pecado
que fume a primeira pedra.’’
 
 No início do ano passado, Keller conversou com um amigo de Castro, interior do Estado, que lhe disse que lá a situação em relação ao tráfico e consumo de crack estava feia. ‘‘Ele me alertou: ‘Aqui na cidade, as coisas estão difíceis. Especialmente na periferia’.’’ O cineasta comentou sobre essa conversa com o amigo Madeira e, no dia seguinte, recebeu o poema em seu e-mail. ‘‘O texto me impressionou. Ainda que agora com o crack a troca seja ao máximo de saliva e não haja troca de sangue, como nos picos (de heroína) nos anos 1990, eles (os usuários) estão definhando.’’
  A mesma impressão tem um dos donos do restaurante Acrótona, casa de sopas que funciona há 34 anos na Cruz Machado e um dos apoiadores do filme. Depois de trabalhar por 18 anos como barman e depois como gerente, Marco Antônio Pereira comprou o estabelecimento. ‘‘A gente vê aí. As prostitutas chegam lindas. Você dá três meses e a menina está um lixo. Isso (o crack) veio para arrebentar’’, e ele completa. ‘‘Elas vão secando. Ficam sujas, mal-cheirosas. Um descuido total, que elas não vêem, mas, para nós, que estamos observando, nós enxergamos tudo.’’
Tensão nas gravações
  As filmagens do curta, que aconteceram entre os dias 10 e 13 de abril, tiveram momentos de tensão. Ao gravar o plano final do filme, uma tomada em que a Catedral da Matriz aparece deformada através do tubo do Ligeirinho na Tiradentes, às 4 horas da manhã de um sábado, a equipe foi ameaçada. ‘‘Nos sentimos seguros durante toda a filmagem e tivemos o apoio de diversos comerciantes da região, mas aquela noite foi tensa.’’
  Primeiro, a disputa entre dois grupos de traficantes, que arremessavam uns nos outros as pedras do petit-pavé quebrado pela reforma da Praça Tiradentes. Depois, foram alertados por usuários de que estar com uma câmera era sinônimo de problemas.
  Mas a noite ainda traria outras surpresas. Outro grupo, de cinco pessoas, passa pelo tubo do ligeirinho batendo pedaços de madeira no chão e anunciando. ‘‘Se alguém filmar a gente, vão levar ripada.’’ A equipe de filmagem insiste, e segue dentro do tubo na gravação da imagem da catedral. A turma dos pedaços de pau retorna, o que faz com que o cineasta Terence Keller saia para mostrar ao grupo que os ameaçava o trecho do roteiro que anunciava ‘‘plano da catedral através do tubo do ligeirinho.’’ ‘‘Pô, agora você me convenceu’’, respondeu o líder do grupo.

‘‘pela praça tiradentes desaguadouro e monturo de homens sem futuro traficantes e usuários usuários traficantes consumindo a criptonita qual se todas suas vidas consistissem num segundo...’’  
Num dos planos do filme, um dos atores sobe a Saldanha Marinho descalço, como se tivesse trocado o calçado por droga. Na seqüência, o jovem apareceria fumando crack. ‘‘Só que, na hora que estávamos filmando a cena, um garoto de
14 anos, descalço e de dedo queimado, veio conversar conosco. Ele me perguntou: ‘Agora ele vai fumar, né?’.’’
  O encontro da ficção, da realidade poetizada com a nua e crua do usuário que viu uma cena e entendeu o filme, fez com que Keller refletisse. ‘‘Mesmo contra a vontade do editor, que diz que nem todo mundo vai compreender o que esse garoto entendeu, vou tirar o plano do menino fumando. A sugestão é muito mais forte.’’
  Como conclusão da experiência do trabalho que fica pronto entre agosto e setembro, Keller, também responsável pelo Díinamo, ponto de encontro dos cineastas paranaenses às quartas-feiras, é enfático. ‘‘A única coisa que percebi é que esse universo é muito mais acessível e real do que parece. Para nós que vivemos o mundo diurno, parece distante’’, diz. ‘‘Mas essas pessoas que estão lá pensam, sentem e têm opiniões sobre as coisas. E sabem muito mais do que imaginamos sobre as drogas. Afinal, são elas que vivem o problema e que são as maiores vítimas delas.’’

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