‘‘Sou egoísta, trabalho porque faz bem para a minha saúde’’. A afirmação, em tom humorado, é do médico João Dias Ayres, 86 anos, um dos mais antigos da região de Londrina. Especialista em gastroenterologia e em cirurgia geral, ele faz questão de comparecer diariamente ao consultório, na área central.
Conversar com João Ayres é lembrar um pouco a história da colonização da região. De fala mansa, gestos calmos, ele vai contando pacientemente os detalhes e faz questão de lembrar das datas, nomes e lugares. ‘‘Antes de me formar em Medicina, em 1937, eu vim para cá ver como era. Aqui tinha a fama de ser uma região que se desenvolveria muito’’, informa.
O médico, nascido em Lapa no dia 1º de março de 1913, lembra que o Norte do Paraná estava recebendo muitos agricultores atraídos pela terra fértil. ‘‘A terra roxa era espetacular e a região era extraordinária. Isso tudo me fascinava porque eu sempre tive temperamento irriquieto’’, revela.
Foi assim que em maio de 1938, já com o diploma da Universidade Federal do Paraná (UFPr) e acompanhado da mulher, a professora Mariana, ele se fixou em Sertanópolis (40 km ao norte de Londrina). Na época estava com 22 anos.
Depois de trabalhar durante três anos naquela cidade e quando ‘‘já tinha uma filha, um carro e dinheiro no bolso’’, João Ayres foi para São Paulo fazer uma espécie de estágio no Sanatório São Lucas. Um ano depois ele voltou a Sertanópolis e iniciou o projeto para construir um hospital, que foi inaugurado em 1947.
‘‘Da primeira pedra do alicerce até a última telha, construí tudo sem apoio de ninguém, a não ser a boa vontade da população’’, lembra o médico, que batizou a obra de Hospital São Lucas. Na época, o hospital era considerado moderno, com laboratório de análise e aparelho de raio-X, entre outros equipamentos.
O médico faz questão de ressaltar que todos que procuravam atendimento no hospital, conseguiam. ‘‘Mesmo os indigentes eram atendidos da mesma forma. Os pacientes particulares pagavam e com isso podíamos ajudar os indigentes’’, observa.
Naqueles anos, João Ayres revezava o atendimento no hospital e o trabalho como delegado de higiene. Em 1952, nova mudança, desta vez para Londrina. ‘‘Se você é interessado pela medicina, tem que evoluir e, para isso, não pode ficar parado’’, justifica.
Dois anos depois (quanto também entrou para o corpo clínico da Santa Casa) assumiu a chefia do distrito sanitário, onde ficou até 1980. ‘‘Passei por mais de 30 secretários de saúde. Isso significa que a minha atuação não foi tão ruim’’, diz, com modéstia. ‘‘Em 1980 senti modificações no sistema de saúde e me demiti’’, resume.
Empolgado, João Ayres conta que o trabalho realizado no distrito era sempre baseado na medicina preventiva. ‘‘E nunca houve interferência política em saúde pública’’, frisa.
Casado há mais de seis décadas, João Ayres tem quatro filhas e 14 netos. ‘‘Tenho três gandes paixões na vida: a família, a cirurgia e a saúde pública. Graças de Deus, a família está encaminhada’’, observa. Além de ainda exercer a profissão, ele gosta também de cuidar do gado, que cria em uma fazenda da região.Cesar AugustoAperfeiçoamentoJoão Ayres: ‘‘Se você é interessado pela medicina, tem que evoluir’’Lucilia Okamura

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