Desde que emancipou-se de Piraquara, em 1993, o município de Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba, enterrava seus mortos em cidades vizinhas. Foi em dezembro de 2008 que passou a ter um espaço próprio para sepultamentos, construído pela administração pública local. Até agora foram ocupadas cinco das 360 gavetas do cemitério vertical. Orçado em R$ 2 milhões e batizado de Complexo Cerimonial, a estrutura também vai contar a partir de fevereiro com crematório, o terceiro público do País - depois de São Paulo e Rio de Janeiro.
Cada cremação custará R$ 800,00 ao município de 116 mil habitantes. Tanto esse serviço quanto o sepultamento serão exclusivos para a população residente na cidade e considerada carente, em que a renda per capita da família é igual ou inferior a meio salário mínimo (R$ 207,50). A expectativa é realizar 80 atendimentos por ano entre sepultamentos e cremações.
"Não quisemos dar um ar fúnebre a esse lugar", comenta Jandir Antônio Nogueira, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Ambiental na gestão encerrada no dia 31 de dezembro. Com área construída de 2.459 metros, o complexo, em forma de cruz, foi implantando à Rua Nova Esperança, 1.300, onde antes existia o campo utilizado pelo Nova Era, que depois mudou-se para os gramados do Arizona Futebol Clube.
"Aquilo parece coisa do Niemeyer, um complexo moderno, maravilhoso", exalta Eduardo Pereira Gomes, 67, dono da Enge-Aplic, de São Paulo, que desenvolveu a tecnologia do forno crematório vendido para o município por R$ 143 mil. Winston Ramalho, o arquiteto responsável pela obra, trabalha há 23 anos com o que ele chama de Arquitetura Bio-ambiental, que também recebe os nomes de Ecológica ou Sustentável. "Ou seja, criar um ambiente adequado às funções humanas utilizando os elementos que a natureza oferece de forma gratuita: sol, vento, vegetação, água", explica.
A estrutura aproveita-se da luz natural e o teto, construído com uma pirâmide no centro, direciona a água da chuva para uma cisterna de 40 mil litros depois utilizada para lavar as calçadas e regar o jardim. Na entrada, uma praça central com uma figueira. A árvore representa a vida, que, tal como lembra o arquiteto, continua.

A 600 metros

O Complexo Cerimonial não é o único crematório de Pinhais. A 600 metros dali funciona outro, um dos três particulares situados em Curitiba e Região (os demais ficam em Campina Grande do Sul e Campo Largo). O Crematorium Metropolitam foi instalado no município em 1999 e vende o serviço de cremação ao custo de R$ 3.150,00 à vista. Também em Pinhais, há um cemitério do mesmo grupo, o Jardim da Saudade, localizado a duas quadras do complexo público.
"Não somos concorrentes pelo simples fato de que atendemos a públicos diferentes", afirma Andrei Matzenbacher, 29, diretor técnico do grupo, que ainda tem cemitérios em Curitiba e Blumenau (SC). "Na verdade, acho importante, pois ajuda a divulgar a atividade da cremação, que é pouco difundida no Brasil, onde as pessoas não estão acostumadas a cremar, mas a sepultar", comenta o diretor, que também é o vice-presidente do Sindicato dos Cemitérios Particulares do Estado do Paraná (Sincepar). "Enquanto aqui a cremação alcança 5% da população que busca serviços particulares, no Japão passa de 90%."
Em sua opinião, o grande desafio dos cemitérios públicos é alcançar uma administração séria, que realmente atenda aos carentes. "Conhecendo o ramo, cansei de ver cidades em que vereadores dizem: como você é meu amigo, vou te dar um jazigo ali."
A Enge-Aplic deve concluir a instalação da máquina de 12 toneladas no espaço público até o final do mês. A empresa, de São Paulo, tem em funcionamento incineradores hospitalares, industriais e de animais em todos os estados brasileiros. O de Pinhais será o terceiro forno crematório para humanos da Enge-Aplic, depois de Campo Largo e Salvador (BA). "Mas não há muita diferença não em relação aos incineradores comuns. O que se tem a fazer é um cuidado maior no cerimonial, que exige respeito, e uma mesa para colocar a urna", explica o engenheiro industrial e dono da empresa, Eduardo Pereira Gomes.
Segundo seus cálculos, o forno, que opera de 800 a 900 graus centígrados, leva uma hora para queimar 100 quilos e poderia fazer 300 cremações por mês, o suficiente para atender a uma cidade do porte de Londrina, que tem 505 mil habitantes. Funciona a gás, consumindo de quatro a cinco quilos por hora.
"Como o forno trabalha com pressão negativa, nenhuma fumaça sai pela porta. Os gases resultantes são dirigidos para a parte inferior e são re-queimados, minimizando os danos ao meio-ambiente." Na sequência, tudo sai pela chaminé de 12 metros de altura.

Gavetas renováveis

"Uma das vantagens do empreendimento é que não vai faltar espaço, pois as gavetas são renováveis", comenta o arquiteto Winston Ramalho. Após cinco anos, a prefeitura tem autorização para remover as urnas das gavetas e levar o conteúdo restante para o ossuário, que, no caso do Complexo Cerimonial, tem 1.144 vagas. Aos que optarem pela cremação mas não quiserem levar as cinzas para casa, há o columbário, local para guardar as urnas, com espaço para 898 recipientes.

O terceiro público do Brasil

O primeiro crematório público do País foi instalado em São Paulo, em 1974. O Crematório Jayme Augusto Lopes, na Vila Alpina, atualmente faz 500 atendimentos ao mês. Mais tarde, foi aberto no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro, o São Francisco Xavier. Quando for inaugurado, o crematório do Complexo Cerimonial de Pinhais será o terceiro público do País.


Serviço

- Complexo Cerimonial de Pinhais: Rua Nova Esperança, 1.300, (41) 3912-5210 ou (41) 9206-3669

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