Chama atenção uma médica que desenvolve trabalhos também com literatura, desenho e teatro. Há alguns anos, a médica Sonia Davanso, do Serviço de Epidemiologia da Prefeitura de Araucária, descobriu durante uma pesquisa em uma comunidade carente de Curitiba que a arte poderia ser um instrumento para chegar aonde não vai o conhecimento técnico. Desde então, os diferentes projetos de Sonia foram levados a diferentes cidades paranaenses e renderam um livro de poesias, fotos e desenhos (''Fabra Morata'' - mais informações: [email protected]), que caminha para a segunda edição.


Folha de Londrina - Como surgiram esses projetos?
Sonia Davanso - Durante o trabalho de campo que fiz na Vila das Torres (em Curitiba), sobre o tema adolescência e desenvolvimento humano, abordando a gravidez na adolescência, essa convivência com a realidade da favela me levou a abrir o meu lado poético, para conseguir lidar bem com essa realidade, separar a objetividade do trabalho científico e uma interação muito afetiva que as pessoas desenvolveram comigo no tempo em que fiquei na comunidade. Essas poesias então foram feitas sempre me reportando ao trabalho com comunidades e surgiu a idéia de publicação depois que eu defendi a tese. Algumas pessoas viram as poesias e disseram que valia a pena publicar.


Folha - Foi então uma coisa totalmente pessoal que acabou ganhando outra dimensão?
Sonia - Foi uma maneira de refletir sobre os acontecimentos que eu presenciava, sobre os diálogos que aconteciam na vila, quando as pessoas expunham sua realidade, suas opiniões, e também quando eu via como a sociedade tratava essas pessoas ditas faveladas, com preconceito. Então, (a idéia) foi surgindo num contexto para lidar com toda a carga emocional daquela experiência, que foi muito forte, muito importante, decisiva, mudei muitos conceitos em saúde a partir dela.


Folha - Quando e como surgiu a idéia de transformar essas poesias num livro e desenvolver trabalhos relacionados?
Sonia - Surgiu depois, quando já estávamos fazendo a peça. Durante o trabalho de campo na vila, os moradores queriam saber para que servia uma tese, quais eram os resultados, e eles se queixavam de que muita gente ia até a comunidade fazer a pesquisa e depois não voltava. Eles eram simplesmente usados. Eu comecei a pensar: ''Vou fazer um trabalho de arte, uma peça de teatro, para poder dialogar com eles sobre o resultado da tese''. Foi no processo de construção da peça de teatro que nós começamos a trabalhar textos, eu mostrei as poesias que eu vinha fazendo e a aceitação que a poesia teve num círculo mais restrito me deu a idéia de fazer a publicação. Eu não me via como poeta.


Folha - A senhora nunca tinha feito poesia antes?
Sonia - Na adolescência. Eu tinha dois cadernos que eu simplesmente rasguei (risos). Eu tinha esse olhar para a arte, depois eu fui para a Medicina. Entrei num caminho totalmente técnico e fui buscar a racionalidade. Durante o doutorado, eu senti a necessidade (de mexer com arte), pelo estresse que é fazer um doutorado, no contexto em que eu estava, fora de um órgão de pesquisa, um pouco mais difícil de conseguir espaço para fazer um trabalho científico. Então, fui fazer teatro para descontrair. Acabei me envolvendo novamente com a arte, voltei a pintar, eu desenhava na adolescência. A tese também teve esse desdobramento, um trabalho de responsabilidade social, um trabalho artístico e um trabalho científico.


Folha - Como esse trabalho foi levado para outras comunidades? Houve uma ação em Foz do Iguaçu, a peça no Festival de Teatro de Curitiba...
Sonia - O trabalho de Foz do Iguaçu foi uma proposta de fazer um teatro para divulgar a importância da agricultura orgânica. Então, eu abordei uma outra tese, de outra pessoa, e escrevi a peça ''Amatita - Uma aventura orgânica''. Já foi apresentada para mais de 150 mil estudantes desde 2004. Ainda há grupos atuando com a peça. A peça ''Vila Paraíso'' (apresentada no FTC) sempre teve pessoas no público ligadas a trabalho na área social, sejam de escolas ou entidades que cuidam de crianças e adolescentes. A minha proposta é essa, não é trabalhar diretamente com o adolescente, porque eu tenho um outro olhar sobre a saúde. Eu acho que nós temos que preparar, trabalhar muito a reflexão com pessoas que estão atuando com grupos de adolescentes. Dentro dessa proposta de medicina de comunidades, eu trabalho com comunidade científica, comunidades de moradores, de vilas, e também comunidades de profissionais de saúde. Faço também palestras motivacionais para pessoas que querem escrever, que estão fazendo trabalho científico e sentem um pouco de dificuldade. Eu interajo com poesia e eu indico para as pessoas que façam poesia, que experimentem escrever, porque você faz uma negociação com as palavras, você pensa mais sobre elas, adquire uma relação, e não faz simplesmente uso delas. É uma relação de buscar entender o significado de cada palavra, a sonoridade. Uma pedagoga me disse que há crianças que têm dificuldades de ler, escrever, de ir à escola, que ela consegue fazer trabalhar por meio da poesia, porque passam a gostar do texto. A poesia hoje, para mim, é um meio tecnológico, de atuação muito forte.


Folha - Quais são os próximos projetos?
Sonia - Nós temos a peça ''Miss'', que está em fase de pré-produção. Nessa peça, eu vou fazer o papel da Sensa, que tem esse nome porque todo mundo chama ela de sensacional, é uma mulher muito despojada para trabalhar, ela quer se dar bem na vida, nunca teve pai, mãe, família. A mãe cuidou dela durante a gestação e morreu, ela não soube mais o que era família. Ela é sempre muito elogiada, mas não pagam para ela, ela sempre leva os calotes, até ela achar a forma dela de se situar nesse mundo de competitividade. ''Miss'', nesse caso, significa mulher, ideais, sonhos e sentimentos. Esse projeto é um outro olhar sobre a Vila das Torres. Na peça ''Vila Paraíso'', foi outra pessoa, outra médica que escreveu, ela pegou a tese, leu e escreveu o texto. Agora sou eu mesma. Nós estamos inscritos no Festival de Piraquara, para fazer uma oficina lançando o projeto. Pretendemos levar também para outras comunidades. Vai depender do vigor que a gente conseguir dar para o trabalho.

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