Curitiba - A hanseníase é uma doença antiga. Já existia mesmo antes da passagem de Jesus Cristo pela Terra. Naquele tempo era conhecida como lepra. Nas linhas da Bíblia, um dos conhecimentos mais disseminados pelo mundo, o tratamento dado aos portadores da doença ganha dimensões cruéis na descrição do Vale dos Leprosos.
Naquele tempo, quem ficava enfermo era retirado de forma compulsória do convívio da sociedade e isolado, ação que perpetuou até a segunda metade do século passado, devido ao medo, preconceito e à falta de medicamentos para combater a doença. Resquícios deste comportamento ainda existem hoje no Paraná.
Parte desta história é contada no Estado por quem viveu e ainda permanece no Leprosário São Roque, em Piraquara, que desde 1990 chama-se Hospital de Dermatologia Sanitária do Paraná. O ex-segurança de supermercado Bento Pereira da Cruz, 65 anos, é um deles. Ele chegou no São Roque há 26 anos, e lá casou com um das internas, Maria, com quem mora numa das casas na colônia do hospital. ''Eu tive uma lesão e mandaram fazer tratamento aqui. Eu tinha mulher e filha e não queria deixá-las, mas me disseram que eu precisava ficar pelo menos 12 meses'', lembra ele, que teve a perna amputada em 2002.
O paciente-morador não esquece o sentimento que sentiu na época. ''Quando voltei para casa, não tinha mulher nem filha mais. Fui abandonado e não deixaram rastro. Decidi vir para cá de novo'', acrescenta ele, que diz receber visitas da filha, hoje com 38 anos.
Como ele, existem hoje 35 pacientes-moradores ou asilados, que por terem perdido contato com a família e com o mundo fora dos limites do hospital ou mesmo para evitar o preconceito e marginalização, optaram por morar no hospital.
A política higienista adotada pelo governo brasileiro da década de 20 até meados da década de 70 criou cerca de 36 leprosários (termo em desuso) no País com o objetivo de isolar da comunidade todos os portadores da doença infecto-contagiosa. Por isso, onde existiu um leprosário, existe também o testemunho material e ocular dessa política.
Já o paciente-morador Alcides Ramos, 60 anos, se viu impedido de conviver com a família, depois que teve hanseníase. ''Eu trabalhava na plantação de soja quando fiquei cego. Oito ano depois, me apareceu a doença'', relata ele, que é casado e tem três filhos. Seu Alcides foi se tratar no São Roque, porque a doença já tinha atingido de forma severa as mãos, pés e braços.
''Depois de curado, voltei para casa. Mas os holandeses ameaçaram expulsar até minha família de casa. Então, por preconceito da comunidade (cidade de Carambeí) e para deixar meus filhos e minha esposa tranquilos, eu preferi ficar aqui'', lamenta. ''Aqui sou bem cuidado, tenho cama limpinha. Mas não me acostumo não. Tenho saudade da família'', disse ele, que vive no São Roque há 20 anos.
''A hanseníase ainda é vista com preconceito pela sociedade e a Saúde não investe em informação como deveria. Se tivesse, é evidente que as pessoas saberiam que uma mancha pode ser algo mais sério e não teríamos tantos casos'', diz Sebastião Carlos Pamplona, membro do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), se referindo ao fato do Brasil ser o segundo país a ter mais casos da doença, atrás apenas da Índia, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS). ''A gente vê que as novelas, por exemplo, colaboram para esse repúdio das pessoas com a doença, usando termos como lazarento e leprosos de forma perjorativa. Por isso que o Morhan nasceu, para cobrar das autoridades o combate ao estigma com a informação'', critica.

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