Antigas empresas, o mesmo negócio
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sábado, 23 de outubro de 2004
Janaina Garcia<br>Reportagem Local 
Prestes a completar 70 anos, Londrina pode ser considerada hoje uma cidade cujos contrastes vão além das cerca de 40 etnias diferentes que abriga. Em tempos nos quais incubadora virou termo para projetos tecnológicos desenvolvidos no ambiente acadêmico, é possível encontrar ainda hoje, junto às profissões ditas modernas, exemplos das que sobreviveram aos anos e à mudança de costumes, bem como à oscilação da clientela.
A Folha conversou com alguns desses profissionais, aparentemente anônimos na imensidão de mais de 93 mil empregados formais do município (dados oficiais de 2001), mas lembrados aqui e ali por diferentes gerações que ou os conhecem, ou ao menos já ouviram falar de alguns deles.
Um exemplo é o mecanógrafo Gervásio Gonzalez, 69 anos, que há cinco décadas conserta, compra e vende máquinas de datilografia de marcas modernas ou anteriores ao boom de computadores verificado na década de 90 e antigas, algumas mais velhas até que Londrina.
Paraguaio de nascença e londrinense por opção, Seo Gervásio conta que deixou o país natal aos 18 anos já escolado na atividade de mecanógrafo. Passou pelo interior de São Paulo e, em uma das paradas feitas em Londrina, decidiu onde moraria e constituiria família. Foi em 1952. Achei a cidade uma graça e, até 54, a visitava uma vez por mês, até decidir onde montaria minha oficina, lembra. O ponto incial foi a Rua João Cândido, quando ainda colocavam os primeiros paralelepípedos no centro da cidade, pouco depois trocado por um no Centro Comercial, onde segue até hoje.
Na oficina, dezenas de máquinas nas prateleiras à venda ou à espera de conserto são o indicativo de que, se resistiu ao tempo, a atividade vai ainda muito bem, obrigado. Bem, não: melhor, o proprietário corrige. Com o advento do computador, muita gente doou ou vendeu suas máquinas; muitos outros se arrependeram e vieram comprar. Nunca vendi tanto como vendo hoje, comenta, ressalvando que o preço, por outro lado, caiu bastante. Há uns 20 anos, uma máquina da marca IBM, por exemplo, custava em torno de R$ 1,2 mil. Hoje, sai em média, por R$ 200, diz, junto à calculadora de 1960 usada para as transações do estabelecimento.
Queda que, segundo Seo Gervásio, foi notada sobretudo na qualidade do produto e no grau de zelo do consumidor. Ao invés de teclas soltas ou quebradas, o principal defeito é a sujeira. E no lugar das máquinas resistentes que eram fabricadas principalmente no México, décadas atrás, hoje a gente tem muito material inferior ou de pouquíssima praticidade, acrescenta, mostrando um equipamento elétrico recente de consideráveis 25 quilos.
Avesso ao computador o que não o impediu, contudo, de adquirir um para os filhos , o mecanógrafo diz ter enumeradas as vantagens do equipamento antigo. E cita uma: Não se bate um recibo no micro, não que eu saiba.
Ajudante na loja, o estudante Willian da Cruz, 16, pensa diferente do patrão. E, apesar de consertar ao menos uma delas por dia, o adolescente garante que o contato não gerou, necessariamente, uma afeição. Acho a máquina de escrever interessante, por ser algo que representa o passado, mas se tivesse dinheiro suficiente compraria mesmo é um computador, admite.
Já o advogado Moisés de Godoy, 63, até comprou um micro para o escritório. Aposentar as três máquinas de datilografar exibidas por ele com orgulho, porém, é algo que nem lhe passou pela cabeça. Fiz curso de datilografia aos 10 anos e tenho adiado as aulas de computação. Para mim, o aparelho novo deixou as pessoas com preguiça de pensar, pois as afastou dos livros. Quando usavámos só a máquina, é como se tivéssemos mais esperança, mais perspectiva, enfim, uma formação cultural mais sólida, avalia.


