Queimar a ponte, para não cair na tentação de querer voltar e cometer alguns dos mesmos erros do ano que termina, é apenas um passo em direção ao futuro, que nos aguarda em 2007. Para entrar no Ano Novo com sucesso, paz, amor, saúde e felicidade - desejos da maioria das pessoas - alguns adeptos de filosofias orientais, que pregam a avenida larga da crença em um universo fenomênico, onde tudo não passa de ilusão da mente, esperam encontrar a passagem entre dois mundos, representados, de um lado, pelas frustrações e decepções passadas e, de outro, o da contemplação mais otimista da vida.
Duas chaves podem abrir as portas para esse paraíso, que começa no interior de cada pessoa, a partir da capacidade de superar os limites de mágoas, ódios e ressentimentos: o perdão e o agradecimento. Por ter consciência desses limites e por acreditar na possibilidade de sua superação, os adeptos da Seicho-No-Ie realizam hoje a tradicional cerimônia do Ooharai, que em japonês significa ''grande purificação''.
Para compreender a celebração, que marca o final do ano entre os praticantes, é preciso enveredar pela mitologia xintoísta, um dos pilares da Seicho-No-Ie, fundada por Masaharu Taniguchi (1893-1985), líder espiritual dos mais conhecidos e influentes do Japão, e que apoiou seus princípios também na ciência, no cristianismo e no budismo.
De acordo com a mitologia xintoísta, o caos precedeu a criação do universo e desse caos surgiu o casal de deuses Izanagi e Izanami. Com orientação dos deuses mais antigos, e em poder da lança celeste, os dois modelaram a terra, dando origem a dez filhos que representam elementos da natureza.
Após o último parto, Izanami acabou morrendo. Revoltado, Izanagi foi ao mundo dos mortos (ou inferno) para recuperar a esposa, mas não conseguiu. Ao retornar ao mundo dos vivos, Izanagi banhou-se em um rio, para se lavar das impurezas dos infernos, ritual que inspirou o Ooharai.
''A partir dessa mitologia nasceu o costume japonês de realizar uma purificação sempre que, por exemplo, alguém muda para uma casa nova ou monta uma loja. Nós, na Seicho-No-Ie, não ficamos só na limpeza física, mas também mental'', afirma o supervisor doutrinário da regional Londrina, Claudio Shizuo Furukawa.
A felicidade, muitas vezes, parece significar acúmulo, ter muito de muitas coisas. ''Entretanto'', como ensina o fundador da Seicho-No-Ie, Masaharu Taniguchi, ''é muito difícil termos tudo. Uns têm muita saúde, mas moram numa casa apertada, ganham pouco e vão para o local de trabalho todo dia a pé. Outros podem ser ricos, materialmente, mas sofrem com os filhos e a mulher. Nesses casos, as pessoas querem conseguir rapidamente aquilo que está faltando, mas, antes disso, devemos agradecer pelo que possuímos no momento. Quando ficamos aflitos, tentando suprir o que nos falta, a mente se torna sombria e negativa''.
Para mudar o padrão de vibração negativo, durante o Ooharai, os adeptos dessa filosofia descarregam tudo num pedaço de papel, que traz o desenho da figura humana, onde mentalizam as coisas ruins. O material será queimado durante a cerimônia. ''Não é o fogo, mas as palavras sagradas da sutra, livreto que traz nossas leis, que incineram as coisas negativas'', destaca Furukawa. Ele lembra que males como a doença, o desemprego e tragédias são consequências da falta de reconciliação.
''É muito importante lembrar de alguém que não perdoamos, principalmente os nossos pais, que são a base de todas as coisas. Algumas pessoas não conseguem ir bem nos estudos, no trabalho e casamento por falta de perdão. Às vezes, alguns podem perguntar como não ter ódio de um ladrão, por exemplo. Porém, é preciso ver a imagem de Deus nele e agradecer por esse filho de Deus e aí conseguir mudar essa imagem negativa'', orienta Furukawa, ressaltando que ninguém consegue agradecer se não perdoa e, consequentemente, não se abre para Deus.
Nessa época do ano em que a cultura de paz está na boca das pessoas, principalmente por meio das mensagens de final de ano, os praticantes do Ooharai acreditam que o perdão e o agradecimento contribuem para a paz mundial. ''Começa com a paz entre irmãos, pais e vizinhos. Não adianta alguém ir à ONU se não está em harmonia dentro de casa'', conclui Furukawa.

Serviço
A Seicho-No-Ie realiza hoje, às 9h, em sua sede regional - Rua Paranaguá, 2.018 -, a tradicional cerimônia do Ooharai ou ''grande purificação'', sendo aberta à comunidade em geral.

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