Poeira e lama. Perobas antigas e imensas. O cenário é típico de regiões da área rural do Paraná. Na época da colonização de Londrina, no entanto, esta era a paisagem de uma das mais importantes ruas da atual terceira maior cidade do Sul do País. Hoje dominada por um comércio forte e pelo intenso tráfego de carros e ônibus, a Rua Sergipe já foi tranquila e acolhedora. A memória deste período está viva na cabeça dos comerciantes mais antigos do local, como Tadamassa Ajimura e Shigero Kii.
Praticamente no coração da Sergipe, o Bazar Ajimura é um dos mais tradicionais do Centro da cidade. Uma visita ao comércio de aviamentos é uma verdadeira viagem no tempo. Com antigos balcões de madeira, Tadamassa e seus familiares comercializam produtos de aviamento, em plena época dos shopping centers e das confecções. Em Londrina desde 1948, Tadamassa Ajimura veio com os pais em busca de uma ''terra promissora.'' ''Londrina era muito pequena, bazar praticamente não existia, então tinha bastante cliente. O que a gente trazia, vendia. Era muito bom para a gente'', avalia.
Segundo ele, a infra-estrutura da região era extremamente precária. A Rua Sergipe não contava nem mesmo com calçamento. ''Era barro, chão puro'', rememora. Com um desenvolvimento constante, Londrina evoluiu com rapidez. ''Quem deixasse a cidade por dez anos, e depois voltasse, se espantava com a mudança'', declara. Para Ajimura, o crescimento é atribuído aos anos de ouro do café, cultura que gera grande demanda de mão-de-obra. ''Na safra boa de café, estava tudo bem. Todo mundo tinha dinheiro.''
A famosa fartura vivida no auge do café, determinante para o desenvolvimento londrinense, também foi importante para os profissionais autônomos. Um exemplo é o comerciante Shigero Kii, 73, que por diversos anos seguiu os passos do pai e atuou como alfaiate em imóvel localizado entre as ruas São Paulo e João Cândido. ''Na época, havia muito serviço. As pessoas não confiavam em roupa feita'', relembra saudoso. Outra vantagem dos tempos antigos, para Kii, era a facilidade para vender. ''Era tudo no cacau. Hoje é tudo no cheque ou cartão e tem muita inadimplência'', queixa-se.
Shigero Kii vive em Londrina desde que chegou em 1941 com a família de Sete Barras, próximo a Registro, em São Paulo. Londrina era então um pequeno município, cujo limite não ultrapassava a estrada de ferro (atual avenida Leste-Oeste). Depois da linha, só havia chácaras. ''Aqui na frente tinha aquelas perobas enormes. Quando chovia, me lembro bem, era um lamaçal danado'', relembra. Este era o cenário da porta da loja de Kii, que também foi bazar e hoje e é um moderno estabelecimento comercial de confecções.
A Rua Sergipe da memória de Kii e Tadamassa é atualmente uma das mais movimentadas da área central. Com a proximidade do Terminal Urbano e o comércio forte, o tráfego de ônibus e carros é sempre intenso. De acordo com o ®MDNM¯ Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (IPPUL), a via antes ocupada praticamente apenas pelos consumidores do incipiente comércio central, hoje tem tráfego intenso, em especial no horário de rush. Entre 17h45 e 18h45, uma média de 800 veículos por hora circula na Sergipe. O cálculo é feito de acordo com o tráfego equivalente, considerando que os ônibus ocupam espaço maior que carros e têm potência e velocidade diferenciadas.
Uma agravante é a largura das faixas de rolamento. Com calçadas mais amplas, para facilitar a movimentação dos consumidores pelas vitrines, a rua, antes tomada pelo barro e árvores, agora tem seis metros de largura. O índice é o mínimo exigido pelo Código Nacional de Trânsito.
Para a gerente de projetos de sinalização e controle de tráfego do IPPUL, Cristiane Biazzono Dutra, a proximidade do terminal contribuiu com a piora do trânsito. ''O transporte coletivo deveria ser ainda mais priorizado para melhorar a fluidez dos veículos'', opina. Segundo ela, a bilhetagem eletrônica e a ampliação de terminais de bairros poderiam melhorar a situação, por vezes caótica, do tráfego na antes bucólica Rua Sergipe.

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