Animais sentimentais
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terça-feira, 19 de agosto de 2008
Omar Godoy<br>Equipe da Folha 
Os bichos nunca sofreram tanto nas mãos dos humanos como nos dias de hoje. É o que garante a médica veterinária Carla Molento, professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Ela fundou e coordena o Labea - Laboratório de Bem-Estar Animal da universidade, que desde 2004 pesquisa estratégias para a diminuição do sofrimento de espécies de companhia e produção.
Carla não tem dúvidas de que as criaturas irracionais têm sentimentos. Ou, para usar um termo técnico, são seres sencientes - com capacidade de sentir dor e prazer. Principalmente os vertebrados, cuja proteção da medula nervosa é semelhante a dos humanos.
De acordo com ela, as evidências científicas são muitas. A começar pela mais básica: quando uma presa foge de um predador, é porque está com medo. ''Nesse caso, esse sentimento é muito útil para a sobrevivência e evolução da espécie'', explica.
Há, ainda, situações difíceis de se explicar sem recorrer ao conceito de senciência. Os cefalópodes (lulas e polvos), por exemplo, apresentam comportamento lúdico. ''Eles gostam de brincar, têm prazer com isso'', afirma Carla.
Seja como for, é importante não cair na tentação do antropomorfismo, da humanização. Para a professora, o pesquisador da área de bem-estar deve ter o senso crítico aguçado e sempre levar em conta a perspectiva dos animais. Por outro lado, o uso da empatia e da compaixão para lidar com os bichos é fundamental.
O enriquecmento dessa relação passa, necessariamente, pela idéia de guarda responsável. ''Se você tem um animal, ele está sob sua tutela, como uma criança'', compara Carla. Sendo assim, é uma obrigação cuidar da saúde, oferecer um ambiente adequado e supervisionar a circulação dos bichos e de sua prole.
Ela cita a grande quantidade de cães e gatos soltos pelas ruas. A maioria é considerada semi-domiciliada, ou seja, volta para casa apenas para comer e dormir. Mas enquanto estão por aí, representam um risco em dose tripla: para si mesmos, outros animais e as pessoas.
O Labea, aliás, desenvolve um projeto de extensão na área de controle populacional de cães. Também pesquisa o abate humanitário de peixes, que podem ser insensibilizados por uma técnica de secção da medula. Tirar da água e deixar morrer naturalmente está fora de cogitação.
''A asfixia é o método mais comum para matar os peixes. Mas é uma morte lenta e sofrida'', afirma a professora. ''Ninguém acharia normal ver um cão se afogando, que é a mesma coisa''.
Mesmo os ornamentais têm sua carga de sofrimento. Estima-se que, para cada exemplar exposto em um loja especializada, outros nove morreram no processo de captura e transporte. Para piorar, quem compra não tem informação suficiente para criar da maneira mais indicada.
Mas são os suínos e as aves poedeiras as maiores vítimas da insensibilidade humana. Confinados em espaços minúsculos, nos quais mal podem se movimentar, atravessam sua curta existência numa situação de tortura.
Para se ter uma idéia, um frango criado ao natural pode viver anos. Já o destinado ao abate dura apenas 42 dias - e passa esse tempo em um espaço que o impede de abrir as asas. ''Quem come carne não pode se dar ao luxo de não refletir sobre isso'', diz Carla.
Nos países desenvolvidos, sobretudo os da União Européia, essa reflexão já evoluiu para a ação. Muitos importadores de carne têm exigido dos produtores uma espécie de selo de qualidade, uma certificação de que os animais foram criados de acordo com o conceito de bem-estar.
Com isso, também se iniciou uma corrida dos frigoríficos brasileiros para ajustar seus métodos de abate - e um aumento no campo de trabalho para os veterinários especializados na área. ''A demanda do consumidor é que vai inverter essa situação'', afirma a professora.
Se a mudança não vem pela via da generosidade, que venha pelo poder do mercado.


