Ana Rita Martins Pugliesi
A idéia de catar cacarecos surgiu depois que eles começaram a reparar num sujeito estranho catando cacarecos nas cercanias da velha casa onde sempre moraram. Sentados na soleira da porta, numa dessas tardes ensolaradas de inverno, foi ela quem primeiro viu, apurando a vista e cutucando o irmão que nessa época já não regulava bem do juízo: parece louco! resmungou ela, olhando de soslaio para não dar na vista. O irmão limitou-se a balançar a perna em sinal de concordância, ora acompanhando, ora esquecendo-se da estranha novidade. Até que o homem desapareceu e, logo mais, também o sol, forçando o recolhimento cedo dos dias de inverno.
A repetição da cena no dia seguinte passou do estranhamento ao nervosismo. Foi ela quem primeiro levantou-se mas, não conseguindo conter a visível excitação, deu um giro no próprio corpo e voltou a sentar-se, agora, desafiando o irmão na elucidação do enigma. O irmão correspondeu na inquietação, mas limitou-se a mudar a posição dos braços, ora encarando a irmã, ora encompridando o olhar na direção do estranho. A cada avanço do sujeito correspondia um sobressalto dos irmãos. Até que ela tomou coragem, melhorou o desalinho da saia, empertigou o porte, e foi.
A abordagem foi cheia de rodeios, desconfianças de parte a parte, avanços e recuos, mas os frutos compensaram: os cacarecos davam lucros quando separados, classificados, empacotados e, naturalmente, vendidos. Veja só!, repassou tudo ao irmão, exagerando em alguns detalhes.
Dia seguinte, muito cedo, já estavam preparados para a nova atividade. Na falta da carroça, que o estranho arrastava como um complemento do próprio corpo, compondo um insólito centauro, improvisaram sacos com trapos já sem serventia que o irmão carregou sem muito entusiasmo.
Chegar ao comprador de cacarecos foi a parte mais difícil, desacostumada que estava a distanciamentos da casa, e, ainda mais, por lhe faltar a solidariedade do irmão. Diante do seu apelo fez-se de surdo, quedando-se amuado e indiferente a todos os argumentos e rogos.
Na hora da venda, algumas reclamações do comprador foram anotadas com um toco de lápis numa velha folha de papel e, assim, pactuaram a parceira.
O tempo, porém, foi mais estimulante da coleta do que propriamente da venda. E o que era um meio de ganhar uns trocados, virou vício. Tanto, que nada mais lhes escapou aos olhos e às mãos e a procura de cacarecos foi se estendendo cada vez mais longe . Cada dia, novas ruas, novos becos e praças foram se integrando ao seu campo de coleta cada vez mais vasto. E a casa foi entupindo-se de cacarecos. Primeiro foi o quintal, depois a varanda, a sala da frente - para que sala se nunca recebiam visitas ! - a cozinha, a despensa. Quando começaram a ocupar também os quartos e o banheiro ela sentiu que a coisa estava tomando um rumo inesperado e perigoso, mas aí já era tarde. E os cacarecos foram se avolumando dentro e fora da casa. As montanhas de velharia como que pariam outras que geravam outras e outras, assim, do dia para noite.
Nem sempre venciam a desorganização embora até tentassem: aqui, as garrafas vazias, separadas pela cor, algumas de difícil definição, verde? azul? ali os papéis; lá, as latas; na sala, os plásticos; e assim por diante.
Foi a partir daí, então, que foram aparecendo os bichos, como que atraídos pelos cacarecos. Primeiro foram os ratos, que atrairam os gatos, que atrairam os cachorros. As galinhas apareceram não se sabe como, e, por conta própria, foram pondo ovos e ovos que mal davam conta de chocar, tantos eram. E as montanhas de cacarecos como que ganharam vida e voz, movendo-se de um lugar para outro, fantasmagóricas.
E tinha o galo!
A ciência do galo veio com o seu primeiro canto, no meio da madrugada. Houve um sobressalto geral, ninguém esperava, e era como se o canto do galo saísse das entranhas dos cacarecos, com eles se confundindo em cor e forma. Até que todos se acostumaram com o seu canto, e tanto, que os dias passaram a se pautar pelos horários melódicos do galo cantador. E ele, como que compenetrado, para cada situação tinha um acorde especial: vigoroso, para despertar; melodioso, para dormir; falsete para o almoço; impaciente e raivoso na cobrança de sua ração diária.
Tantos anos depois, já nem se lembram quando, nem como, começaram a misturar os dias com as noites, até chegarem neste estado em que o único referencial do tempo é o canto do velho galo.
Foi ela quem primeiro notou o olhar estranho dos vizinhos, o cochicho das pessoas passando devagar, o susto de alguns mudando de calçada e olhando de soslaio, para não dar na vista. Parecem loucos !, balbuciam.





