São Paulo - Alcides amava Adélia que amava um terceiro qualquer. Gilmar amava Evelyn que não amava ninguém. Alcides está no hospital, Adélia morreu afogada, Gilmar cometeu suicídio, Evelyn foi baleada e o sujeito sem nome não quis aparecer na mídia. A trágica sequência de triângulos amorosos poderia ser apenas uma paródia do conhecido poema ''Quadrilha'', de Carlos Drummond de Andrade. Mas os personagens descritos saíram do noticiário policial.
Após estudar o ciúme por mais de 20 anos, o especialista Eduardo Ferreira-Santos é taxativo sobre crime passional: ''Quem ama não mata'', diz . Esta mesma frase virou lema de vários grupos femininos em 1976, quando a socialite Ângela Diniz foi assassinada pelo namorado Doca Street. ''Naquela época, crimes em defesa da honra eram socialmente aceitos. Hoje, matar por ciúmes é um agravante'', completa o profissional.
Médico-supervisor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), Ferreira-Santos já tratou crises de ciúmes de intensidades diversas. ''O ciúme é egoísta. Restringe a liberdade do outro. Podemos compará-lo com a dor: todo mundo sente dor, mas não é normal sentir muita dor, por tempo prolongado.''
Cíntia Valadares, 22 anos, concorda com a posição de Ferreira-Santos. Por sorte, ela procurou ajuda antes que uma obsessão pelo ex-noivo culminasse em tragédia. ''Por causa do meu ciúme ele foi parar na delegacia. Como eu não poderia ir a um jantar com ele e não queria que fosse sozinho, fiz uma denúncia falsa. Inventei que havia sido roubada e que sabia onde o ladrão estava. Dei o endereço da festa e ele ficou detido por quatro horas. Para reatarmos, ele impôs que eu procurasse tratamento'', conta.
Em terapia há um ano, Cíntia casou-se com outra pessoa. E, curiosamente, passou a ser vítima de ciúme. ''Estou me separando, agora sei como é difícil conviver com ciumentos. Meu marido tem ciúme até do cabeleireiro, que é homossexual. Tive até de deixar a faculdade. Vejo o ciúme como um vilão nos relacionamentos, uma doença. Agora, foi a minha vez de indicar o tratamento.''
Manifestações masculinas de ciúme tendem a ser mais violentas. Não é à toa que grande parte dos crimes é cometido por homens. Pesquisador da USP, o psicólogo Thiago de Almeida lança hipóteses para a agressividade masculina diante dos rivais - reais ou imaginários.
''O ciúme tem conotação mais sexual para o homem, é sentido como dupla traição. Ele imagina que a mulher foi duplamente conquistada por outro, já que trata o envolvimento sexual como indício de que a esposa se deitou com alguém porque estava emocionalmente envolvida. Para as mulheres, a traição é emocional, elas ficam mais deprimidas'', diz Almeida.
Professor de Psicologia da USP, Aílton Amélio da Silva destaca aspectos positivos do ciúme. ''Em dose moderada, ciúme é um mecanismo útil para preservar a unidade conjugal. O ciúme ajudaria a manter o casal unido para cuidar da cria'', afirma.

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