AMOR IMENSO - Reconciliação: um desejo possível?
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de novembro de 2007
Christina Gumiero<br>Agência Estado 
São Paulo - ''...Eu só sei que cansei, enfim, dos meus desencontros, corre e diz a ela que eu entrego os pontos''. A música ''Desalento'' de Chico Buarque e Vinicius de Moraes traduz em poesia o apelo desesperado de um homem para reconquistar a mulher amada.
A letra fala de dor, de solidão, de arrependimento e implora perdão pelos erros cometidos. Esses sentimentos são vivenciados intensamente por inúmeros casais que, após uma separação e por terem vivido novas experiências, decidem reatar o relacionamento dispostos a superar mágoas, voltar a traçar planos conjuntos e a renovar a relação que se perdeu com a separação.
Quais são os segredos para não se repetir os erros e correr os mesmos riscos após a reconciliação? Como lidar com as mágoas e juntar os ''pedacinhos'' para que o namoro não se perca nos mesmos vícios que levaram à desilusão no passado?
Teoria Triangular do Amor
Na avaliação do psicólogo especialista em comunicação não-verbal e relacionamento amoroso Ailton Amélio da Silva, autor de vários livros sobre o assunto, como ''Para Viver um Grande Amor'' - seu mais recente lançamento, em parceria com Mônica Martinez -, é preciso analisar exatamente os motivos reais da separação e o que levou o casal a pensar na possibilidade de retomar a relação. ''Se o casal está voltando é porque existe algo positivo entre os dois, alguma compatibilidade muito forte'', afirma.
Entre essas ''compatibilidades'', o médico cita como exemplo o estudo do também psicólogo Robert Sternberg, conhecido pela Teoria Triangular do Amor, que é baseada em três pilares: intimidade (cumplicidade), paixão (romântica, sensual) e compromisso (morais, éticos, familiares.) Segundo Silva, se o relacionamento estiver baseado em pelo menos um desses elementos, mais chances têm de sobreviver.
Doutor em Ciências e criador e responsável pela disciplina de relacionamento amoroso nos cursos de graduação e pós-graduação da Universidade de São Paulo, Silva diz que muitas vezes a relação não deu certo por motivos externos: uma das partes se envolveu emocionalmente com outra pessoa; a distância física - mudança de estado ou país por motivos profissionais; os filhos de uma das partes que não aceitavam o relacionamento; e a incompatibilidade de valores éticos, financeiros e até práticos, como horários e períodos de férias que não coincidem.
O tempo, esse grande aliado
Nesses casos, de acordo com o psicólogo, o fator tempo é o grande aliado para a reconciliação, uma vez que ajuda a resolver uma série de problemas que impediam ou atrapalhavam o sucesso do namoro. ''Se uma das causas da separação foi gerada por atritos entre filhos de uma das partes, por exemplo, o tempo ajuda muito, uma vez que os filhos que até então não aceitavam a relação evoluíram, cresceram e vêem a relação do casal de outra forma'', afirma.
É preciso, antes de pensar na possibilidade de volta, analisar os motivos que levaram à retomada do relacionamento. Carência, solidão, comodismo, situação econômica. Esses e outros fatores podem camuflar os verdadeiros motivos reais que devem unir o casal. Discutir a relação, neste caso, pode ser uma armadilha. ''O problema de discutir a relação é fugir do controle, reabrir feridas e deparar novamente com os problemas que levaram à separação'', afirma.
O psicólogo afirma que a primeira dica para uma relação ter sucesso é escolher bem o parceiro, ter compatibilidade, porque dificilmente as pessoas mudam. ''Não é verdade que o amor tudo supera, que os opostos se atraem e se complementam. O ideal é que os dois tenham nível sociocultural, crenças religiosas, sexualidade e valores parecidos. Porque não adianta querer mudar o outro depois. O amor é míope e o namoro é um bom par de óculos'', defende ele.
Juntar os pedacinhos
A volta do namoro sempre está envolta em novidades, em expectativas de mudança do outro. Há sempre uma esperança de que o outro tenha mudado. ''Dar a volta por cima é importante, assim como traçar novos projetos de vida em comum'', defende o médico. Mas ele alerta, é preciso usar a criatividade e não tentar colar os ''pedacinhos do amor'' para reconstruir a relação. ''O casal precisa entrar no novo relacionamento com os dois pés no barco e rapidamente criar metas conjuntas, fazer grandes projetos e executá-los juntos, como uma super viagem, uma casa. É preciso assumir integralmente um ao outro, investir na relação, abandonar o egoísmo e fazer concessões, trocar o 'eu' pelo 'nós''', diz o psicólogo.
Recomeçar do zero um relacionamento recheado de histórias, brigas e mágoas é mesmo um desafio, mas não impossível quando realmente existe amor. O segredo é cultivar a arte do perdão e ser generoso com as limitações e fraquezas do outro.
Serviço
Livro: ''Para viver um grande amor'', Ailton Amélio da Silva e Mônica Martinez (Editora Gente / 168 páginas / Preço médio: R$ 28,00)


