Estar ao lado do ser amado ou simplesmente lembrar de sua existência e sentir aquele friozinho na barriga de fazer as pernas tremerem. Coisa de filme? Pode até ser. Mas até alguns anos atrás, essa cena era comum no cotidiano de jovens que buscavam, por meio de um namoro, constituir uma família e serem felizes para sempre.
A fisioterapeuta Rejane Massi, 28 anos, lamenta por não viver naquele tempo. Para ela, os relacionamentos de hoje estão cada vez mais banais. ''Ninguém quer nada com nada. Hoje em dia você tem que pressionar porque senão a pessoa com quem você está junto, vai levando, levando e não sabe o que quer. Namoro para os homens hoje parece casamento, eles se assustam quando falamos disso'', diz.
O terapeuta sexual, Calvino Coutinho Fernandes, afirma que hoje as relações estão muito diferentes e que essas mudanças vem acontecendo gradativamente desde a década de 1950. Para ele, as pessoas se animalizaram muito e estão cada vez mais instintivas. ''A sociedade mudou nos aspectos sociais, morais e éticos. Há uma crise de valores, de identidade, de limites. Vivemos uma época em que nada mais é respeitado. Vivemos a era do vazio'', diz Fernandes.
Ficar com alguém por ficar atropela fases importantes da paixão. Segundo o terapeuta, o ser humano precisa vivenciar limites nos relacionamentos amorosos e que, para todas as fases, existem momentos certos. ''Que graça tem sexo toda hora com qualquer um?'', questiona o terapeuta, explicando que a falta de limites de hoje fez com que os homens se tornassem mais machistas e que apesar disso, esse homem está cada dia mais inseguro.
''O homem aprendeu uma coisa, mas a sociedade está diferente. A mulher, que é essencialmente diferente, está disputando a corte de igual para igual com o homem, mas não é isso que ela quer. A mulher quer carinho, afeto, confiança. Para a mulher se sentir bem ela precisa de confiança, mas a própria mulher está se deixando ser desvalorizada'', diz.
As mudanças sociais e de valores, como o próprio terapeuta esclarece, têm contribuído para os relacionamentos amorosos se firmarem cada vez mais tarde. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2004, mostram que há dez anos os homens se casavam, em média, com 28 anos de idade e as mulheres com 24. Hoje, os homens estão se casando com 30 e as mulheres só com 27.
Para um relacionamento dar certo, todas as etapas devem ser vivenciadas pelo casal, o que hoje não acontece mais. Fernandes explica que a fase da paixão é importante para as pessoas se conhecerem e daí então poderem ter a oportunidade de viver um amor de verdade. ''Hoje as pessoas se usam e são usadas como coisas. Existe um ciclo normal em que ocorre a liberação de hormônios para você saber dessa pessoa pelo olhar, cheiro, voz, pelo tato. Um simples pegar na mão antigamente, era motivo de uma grande sensação de felicidade. As pessoas hoje nem se conhecem direito, é um conhecimento superficial''.
O terapeuta ainda aponta que os novos relacionamentos amorosos não permitem mais a conquista por meio da paquera da mulher, que antes proporcionava o encanto no homem e que, consequentemente, agia de maneira cordial para conquistá-la. ''Na verdade, ninguém está feliz com esse novo modelo de relacionamento. As mulheres assassinam tudo quando vão para cama com alguém que mal conhecem e os homens sentem medo de serem criticados pelo que não são. Ainda há o excesso de exposição do sexo por meio da mídia que contribui cada vez mais para os relacionamentos sem compromisso vividos hoje'', conclui Fernandes.

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