O repórter já está pronto para começar a entrevista, mas quem faz a primeira pergunta é o entrevistado. ''De onde é a sua família?'' Diante da resposta do jornalista, que conta que o pai é procedente do município de Terra Boa, no Noroeste do Paraná, o médico Henrique Alves Pereira Junior, 82 anos, não pensa duas vezes. ''Eu fiz o parto do seu pai''. E dá detalhes. ''Era uma madrugada. Foram me chamar, dizendo que em um sítio, perto do distrito do Malu, sua avó estava para dar à luz. Fui de jipe e fiz o parto''.
O médico ligou os fatos partindo do sobrenome do repórter e conseguiu se lembrar de um dos oito mil partos que fez, realizado há mais de 50 anos, em outubro de 1959. Ele é um dos vários médicos paranaenses que já passaram dos 50 anos de profissão mas que continuam ativos, tocando a carreira, na maioria das vezes impulsionados pelo desejo de ajudar aqueles que precisam ter a saúde restabelecida. Só nos últimos cinco anos, o Conselho Regional de Medicina (CRM) do Estado homenageou 176 profissionais que chegaram ao jubileu de ouro profissional sem qualquer deslize ético. É uma turma do tempo da maletinha, quando o médico atendia nas casas, mas que acompanhou a evolução e hoje usa outra maleta, a do laptop.
Henrique Alves Pereira Junior ainda guarda com carinho a sua maletinha de couro, na qual levava tudo o que fosse necessário para o primeiro atendimento a um doente; virou uma relíquia que guarda uma boa história.
Nascido na cidade de Miraí, no Sul de Minas Gerais, filho e irmão de médicos, ele veio para o Norte do Paraná depois de se formar, em 1953, pela Faculdade Nacional de Medicina, que hoje faz parte da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O pai e o irmão mais velho já estavam estabelecidos em Ibiporã quando ele chegou à terra vermelha com o diploma debaixo do braço.
''Vim de avião. Lá de cima, da janelinha, já fiquei encantado com Londrina e decidi que era nela que queria viver. Mas era pretensão demais para um recém-formado querer trabalhar naquela cidade que já tinha em torno de 60 médicos e era considerada grande. Então, fui para o Norte Novíssimo, na região de Campo Mourão, que começava a ser colonizado. Cidades estavam nascendo por lá. Surgiu Terra Boa e eu a escolhi. Era o tempo do Café e tudo fervilhava. O município chegou a ter 62 mil habitantes. E eu, além de médico, fui prefeito de 1963 a 1969'', relata Pereira Junior.
No Norte Novíssimo, de maletinha na mão, o médico atendia de tudo, de picada de cobra a parada cardíaca. Tempos difíceis, mas de boas recordações. ''Era um costume da época que as pessoas chamassem os médicos nas suas casas. Portávamos sempre medicamentos de urgência e material esterilizado. Primeiro se resolvia o problema na residência e depois o doente ia para o hospital'', explica. ''Nunca deixei de atender ninguém, nunca fiz distinção. Até meu adversário político era meu paciente'', completa.
Na FOLHA, vida nova
Em 1969, nas páginas da FOLHA DE LONDRINA, ele viu um anúncio que mudaria seu destino. Estava nascendo a Universidade Estadual de Londrina (UEL) e haveria um concurso para médicos. Henrique Alves Pereira Junior passou em primeiro lugar e realizou o sonho de morar na Pequena Londres em 1970.
Dinâmico, não perdeu tempo. Fez quatro especializações: clínica médica, cirurgia geral, obstetrícia e medicina legal. Ajudou a trazer o Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado, o antigo Ipe, para a cidade e foi um dos fundadores da Unimed de Londrina.
Na UEL, organizou as disciplinas de semiologia e clínica médica e durante 27 anos dividiu seu tempo entre a universidade e a clínica particular, na qual trabalha até hoje, todos os dias. Vez ou outra é designado pela Justiça para atuar como perito, por conta da especialização em medicina legal, trabalho que o faz viver mergulhado nos livros, sempre em busca de atualização. ''Para ser um bom perito é preciso saber tudo de todas as áreas da Medicina'', comenta.
Outra coisa que o médico pioneiro faz diariamente é acordar antes do sol para caminhar quatro quilômetros, o que lhe garante a saúde em dia. Casado há 49 anos com dona Élcia e pai de Maria Tereza, Henrique, Carmem e Maria Regina, ele, que começou a entrevista perguntando, termina respondendo. O que o senhor sente quando olha para trás e vê a sua história? ''Gratidão'', simplifica.

mockup