Admiradora dos ipês floridos que colorem a cidade, a poeta e letrista Alice Ruiz, 51 anos, que durante duas décadas foi casada com o poeta Paulo Leminski, se considera uma curitibana típica. ‘‘Não há nada mais curitibano do que falar mal desta cidade e eu me encaixo muito bem neste padrão’’, brinca.
‘‘Como eu adoro Curitiba, me tornei muito crítica em relação a ela’’, afirma. ‘‘Acho que estou muito próxima da cidade para dizer se ela é normal ou não’’, diz Alice, lembrando da música do Caetano Velozo que fala que ‘‘de perto ninguém é normal’’.
Ela acredita que o comportamento do curitibano se explique pela forte colonização européia do local. ‘‘Somos todos filhos de imigrantes, o que tem um aspecto positivo de permitir uma visão cosmopolita da cidade, uma cultura rica e características claras de primeiro mundo’’, afirma.
‘‘Por outro lado, a mesma formação faz com que tenhamos um pé no atraso, no passado retrógrado de tradições que foram congeladas no tempo e que não são mais uma realidade na Europa’’, diz a poeta.
Essa colonização também seria responsável pela formação de tribos quase que rivais na cidade. ‘‘Existia o clã dos italianos, o dos ucranianos, dos alemães e vários outros’’, acredita Alice. ‘‘Dentro dos grupos as amizades eram intensas, mas as etnias não se misturavam e os grupos se tornavam super fechados’’. Na opinião da poeta, algumas características desta fase se mantém até hoje. ‘‘Eu acho que Curitiba é mais formal do que normal’’, admite.
Outro traço forte presente na maioria dos curitibanos seria o complexo de inferioridade. ‘‘Na opinião popular, se é nosso, não é bom’’, diz. Ela se refere ao teatro, à música e aos aspectos cotidianos da cidade. ‘‘Durante toda a sua vida, o Paulo (Leminski) foi muito mais reconhecido no Rio, em São Paulo e em outros centros do que aqui’’, conta.
Apesar de tudo, Alice acha que a Rita Lee tem razão quando fala sobre a normalidade curitibana. ‘‘Temos um ritmo bem comportado de vida, uma felicidade padrão’’. Na opinião da poeta, Curitiba é a cidade perfeita para ‘‘ver os filhos crescerem’’ e para produzir artística e literariamente. ‘‘Aqui a vida tem mais tempo, mais organização e mais tranquilidade’’.

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