Amigo de aluguel
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
André Amorim<BR>Equipe da Folha 
Quando descobriu a existência dos personal friends (ou amigos de aluguel), o ator Fernando Cardoso, de 28 anos, imaginou que a atividade não daria certo no Brasil, terra de gente desinibida, boa em fazer amizades. Bastaram alguns cliques na internet para ver que estava equivocado. Existiam alguns personal friends brasileiros faturando um bom dinheiro com a atividade. Que legal, ganhar dinheiro se divertindo!, pensou Cardoso, que a partir daí correu atrás de mais informações para oferecer o serviço na capital paranaense.
Entrou em contato com um personal experiente de São Paulo, que lhe deu mais detalhes do ofício. Descobriu que existe um questionário que é aplicado antes de iniciar uma amizade, para avaliar as intenções e os gostos de cada contratante. Descubro que tipo de amigo eu terei que ser, explica Cardoso. Se ao final dessa avaliação (elaborada em conjunto com um psicólogo) detectar alguma dificuldade em ser o amigo pretendido, ou algum mal entendido com o serviço oferecido, o personal friend descarta o cliente.
Há quatro meses nessa atividade, ele tem hoje três amigos e uma amiga que pagam pela sua companhia. Os programas são os mais diversos possíveis. Teve um que me chamou para ir com ele ver apartamento para comprar, conta. Outros querem um parceiro para praticar esportes, companhia em eventos sociais, ou simplesmente alguém para dividir o tempo. Apesar de estarmos sempre em contato, o ser humano é muito sozinho, avalia Cardoso.
Clientes são bem sucedidos
Seus clientes têm entre 30 e 50 anos, são profissionalmente bem sucedidos, estabilizados financeiramente e não querem arcar com as cobranças de uma amizade convencional. Alguns têm medo de falsos amigos que se aproximem por interesse, conta. Outros não querem ficar ouvindo os problemas dos outros.
De acordo com a atividade que terá que desempenhar com cada cliente e sua disponibilidade, Cardoso faz seu preço. O pagamento é adiantado, o mínimo são quatro saídas, em geral de três horas cada, tudo estabelecido previamente em contrato. Ao contrário de outros serviços, quanto maior o tempo contratado mais caras ficam as horas. Os clientes também arcam com a entrada do cinema, comida, bebida e outras despesas do amigo de aluguel.
Personal cobra
até R$ 300/hora
Ele não conta quanto cobra pelo serviço, revela apenas que vê boas possibilidades de retorno financeiro a longo prazo. Na internet é possível encontrar amigos de aluguel que cobram de R$ 50 a R$ 300 por hora. Cardoso conta que chega a trabalhar até 80 horas por semana, mas diz que está longe de ficar rico.
O amigo que todos procuram, segundo ele, é aquele que sabe escutar, está sempre disposto, feliz e nunca mostra insatisfação. Enfim, o amigo perfeito. As pessoas falam: Ah, Fernando tão bom estar com você. Você está sempre sorrindo, diverte-se. O fato de ser ator ajuda bastante na hora de interpretar esse tipo de amigo. Principalmente quando estou de mau humor, confessa Cardoso.
Atividade sofre muito preconceito
Ele prefere não freqüentar os locais onde encontrará pessoas do seu círculo pessoal de amizades. Quando isso acontece, ele age normalmente, como se estivesse se divertindo e não trabalhando. Procuro desvincular da minha imagem pessoal, não levo (os clientes) na minha casa, exemplifica.
Outra preocupação do personal friend e deixar bem claro do que se trata o serviço. Não sou psicólogo, muito menos garoto de programa, adverte. Ele conta que a atividade sofre muito preconceito, alguns jornais não permitem a divulgação dos seus anúncios, por imaginarem tratar-se de outro tipo de amizade.


