Ameaça verde
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terça-feira, 22 de julho de 2008
André Amorim<br>Equipe da Folha 
Quem passa por Rio Branco do Sul, município próximo a Curitiba, percebe o verde abundante que cobre as montanhas da região. Chegando mais perto, é possível observar que, diferente de outras formações vegetais, ali tudo parece obedecer a um certo padrão, com árvores postadas obedientemente lado a lado, formando um tapete verde e homogêneo, que até parece saído de um cenário artificial.
Trata-se de áreas de plantio de pinus, uma planta de origem européia que foi trazida ao Brasil ainda na década de 1950 com o objetivo de produzir madeira. Como cresce rapidamente, ela logo tornou-se objeto de desejo de muitos proprietários de terra do Paraná, que viam uma lucrativa lacuna a ser preenchida na indústria madeireira do Estado.
Nos anos 1970, essa cultura floreceu em muitas cidades da Região Metropolitana de Curitiba (RMC), como Itaperuçu, Rio Branco do Sul, Doutor Ulysses e Tunas do Paraná, que integram a região conhecida como Vale do Ribeira. Hoje ela continua tão presente quanto antes, porém, muitas entidades ambientais tem levantado bandeiras contra essa cultura.
Segundo Joaquim Gregório Rausis, ambientalista articulador do território Vale do Ribeira, muitas empresas de reflorestamento estão desrespeitando as restrições de não plantar pinus em topos de morro, em fundo de vale e desmatando a mata ciliar. ''Se aqui tinha alguma fonte, não tem mais'', afirma ele apontando para uma longa área de reflorestamento no município de Rio Branco do Sul, onde é possível verificar que o Código Florestal (que estabelece os parâmetros para o plantio de árvores de reflorestamento) foi desobedecido. Para Rausis, é possível conviver com a cultura de pinus, desde que algumas regras sejam respeitadas.
Opinião semelhante tem o secretário estadual de Meio Ambiente, Rasca Rodrigues. Segundo ele, a cultura de pinus é menos perniciosa do que a pecuária, por exemplo, mas ainda assim precisa ser feita com cuidado para não causar danos à natureza. ''O manejo tem que ser bem feito, até porque essa é uma espécie invasora'', avalia. Essa observação se refere ao fato da planta não pertencer à flora brasileira. Sua alta capacidade de dispersão das sementes faz com que ela concorra de maneira desigual com outras espécies vegetais nativas, como a araucária, por exemplo.
Esse cuidado se justifica pelo fato da região ser considerada a maior área contínua de Mata Atlântica do Brasil. Para o diretor de mobilização da ONG SOS Mata Atlântica, Mário Montovani, trata-se da ''jóia'', que corresponde a cerca de 20% desse tipo de vegetação, com uma vocação única de ser repositório do bioma da Mata Atlântica brasileira.
O avanço da cultura de pinus sobre a vegetação nativa preocupa o promotor Robertson Azevedo, da promotoria de meio ambiente do Ministério Público do Paraná. Segundo ele, o baixo preço da terra, que não permite o cultivo de outras culturas por ser montanhosa, e a proximidade de Curitiba e do porto de Paranaguá, incentiva a silvicultura na região. ''O pinus está sendo plantado no lugar de pastagens e também em áreas de Mata Atlântica sem levar em conta as áreas de preservação permanente'', alerta.


