Dorico da SilvaUm bom ponto pode render bem: a garrafinha é vendida a R$ 1,00 É fácil encontrar ‘‘laranjinhas’’ que vendem suco nas entradas e saídas da cidade, local para onde eles foram obrigados a ir. O grande fluxo de pessoas nas rodovias compensa o sistema. A média de venda de cada ambulante é de 30 garrafinhas de 500 ml por dia. A maioria é autônoma e recebe em torno de 25% do volume comercializado. Os demais vivem da produção caseira de suco.
‘‘Dá para o gasto, principalmente para a gente que não tem condições de encontrar um emprego’’, afirma Valdene de Paiva. Ele e o pai ‘‘fabricam’’ o suco em casa há dois anos. Não têm alvará da prefeitura ou autorização da vigilância sanitária para vender o produto. O pai de Antônio já trabalhava com venda de frutas de época, principalmente laranjas, nos acessos da cidade. E, há dois anos atrás resolveu investir no mercado do suco: comprou dois carrinhos e foi para a rua.
A garrafinha de suco é vendida a R$ 1,00 cada - preço praticado por todos. A venda garante a Antônio e seu pai uma renda bruta de cerca R$ 800,00 por mês, nas épocas menos quentes. Uma ambulante que preferiu não se identificar, conta que o produto é feito pelo tio garapeiro.
O tio, diz, tem dois carrinhos onde trabalham ela e um outro parente. As vendas são boas e mesmo em dias menos quentes, a média de venda de cada um chega perto de 30 unidades. Só na Rodovia Celso Garcia Cid (PR 445), entre o Jardim Bandeirantes e o cruzamento com a Avenida 10 de Dezembro, podem ser encontrados sete laranjinhas fixas - com pontos de venda permanentes. Na BR 369 (Avenida Tiradentes), do acesso a Cambé até a entrada da cidade trabalham outros 13 ambulantes de laranja.
RótuloTodos utilizam o mesmo sistema de trabalho: expõem as garrafinhas aos passantes, com indicativos de que o produto é natural. Mas os rótulos, na maioria das vezes, não trazem procedência ou data de fabricação. Na hora de comprar o produto, o ambulante saca de dentro do carrinho uma garrafinha sem rótulo. ‘‘É que a gente produz e vende tudo no mesmo dia’’, tentou justificar um deles.
Apesar de existirem sete empresas na cidade, com 49 carrinhos autorizados, nenhuma das laranjinhas abordadas pela reportagem é regular. E nenhuma delas vendia o suco processado pelas empresas fiscalizadas e cadastradas.
‘‘O número de irregulares é pelo menos 10 vezes maior que o de registradas na Comurb’’, afirma o médico-sanitarista da Vigilância Sanitária de Londrina, Antônio Tadeu Riba Sisti. E a perspectiva de uma fiscalização mais intensa é remota.
Sisti explica que o departameto de Vigilância Sanitária conta com apenas quatro fiscais, que respondem por 11 mil estabelecimentos comerciais e ambulantes credenciados de Londrina. ‘‘O número de fiscais é pequeno para atender os credenciados e dificulta ainda mais a fiscalização dos irregulares’’, afirma. Acrescenta que a situação se agrava porque a crise social faz o número de ambulantes irregulares crescer. As pessoas procuram neste tipo de iniciativa a sua sobrevivência.
ConsumidorPara Sisti, a população precisa ser mais exigente quanto a qualidade do produto que consome. ‘‘Mesmo que tivéssemos mais fiscais, o problema não seria resolvido enquanto a população continuasse comprando produtos sem rótulo, procedência e data de validade’’, afirma. O risco que um produto comprometido oferece é a contaminação.
Industrializar o suco em local inadequado, utilizar frutas e água de má qualidade, por exemplo, são fatores que favorecem a contaminação do produto. A acidez natural que a laranja contém serve de auto-proteção contra contágio por bactérias e fungos, mas o sanitarista Antonio Tadeu Sisti adverte que até este tipo de contaminação também é possível.

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