Hilton Silva
De Curitiba - Especial para a Folha
O processo histórico de surgimento dos hospitais registra os primeiros centros de tratamento com o caráter de isolamento. No período medieval, os mosteiros eram os principais locais de tratamento, onde o doente se submetia aos limitados recursos disponíveis na época.
Para o arquiteto Nelson Schietti de Giácomo, essa influência dos mosteiros justifica o ar sombrio que, por muitos anos, determinou a arquitetura dos hospitais em todo o mundo. Giácomo atuará como moderador da Mesa Redonda que vai discutir as ‘‘Principais Tendências dos Edifícios Hospitalares’’, na Saúde 99. Segundo ele, a preocupação dos projetos atuais é de que o hospital funcione ‘‘como um centro de humanização, com elementos que se integrem e auxiliem ao máximo na recuperação dos pacientes’’.
Giácomo explica que mesmo as construções mais antigas, pautadas por projetos que descuidavam dos usuários, estão passando por reformas que buscam eliminar a arquitetura escura, sombria, e afastar definitivamente a idéia do confinamento. De acordo com o arquiteto, essa tendência vem se acentuando nos últimos 20 anos e tem como base eliminar as barreirras que tornavam agressiva a relação usuário/edifício, geralmente traduzida em trauma para os parentes do paciente e em um período maior e de difícil recuperação.
Um dos elementos cada vez mais presentes nos novos projetos é o uso da luz e das cores. Espaços alternativos, como jardins, também estão incorporados a essa nova arquitetura, que busca ampliar a harmonia na convivência entre pacientes ew profissinais de saúde. ‘‘Essa humanização era vista antes com restrições’’, lembra o arquiteto Nelson de Giácomo. ‘‘Atualmente, a medicina destaca o processo de integração como um dos fatores que ajudam no processo de tratamento de saúde.’’
Com o avanço da medicina e dos métodos de trabalho, foram desmistificados também alguns conceitos mais recentes e que se traduziam em mais barreiras para o paciente. Giácomo cita como exemplo as áreas das Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). ‘‘Há uns 15 anos, não se permitia a presença de qualquer familiar em uma sala de UTI. Essa postura se justificava até mesmo pelo receio de infecções. Isso mudou totalmente. Hoje, o acesso controlado permite o benefício do contato com o doente – uma mudança de comportamento que trouxe benefícios.’’
Visão empresarial – Mas não só as barreiras de convivência foram eliminadas na moderna arquitetura hospitalar. A mudança de comportamento dos usuários e a tendência cada vez mais evidente de profissionalização dos hospitais está criando outras demandas, incorporadas aos novos projetos arquitetônicos. Uma referência dessa nova realidade é o Centro Hospitalar de Cleveland, capital do Estado de Ohio, nos Estados Unidos,que possui uma estrutura hoteleira integrada ao hospital. Na opinião de Nelson de Giácomo, no Brasil essa tendência também está sendo assimilada. ‘‘Cada vez se torna mais comum, por exemplo, a inclusão de espaço para lojas de convivência nos hospitais’’, diz. ‘‘São elementos que reforçam o conforto e a facilidade para quem se vê obrigado, ainda que temporariamente, a incluir a rotina hospitalar em seu cotidiano.’’
Outra preocupação dos novos projetos de arquitetura hospitalar é o uso de elementos que possam otimizar e racionalizar o uso de sistemas de energia elétrica, de água e de gás. ‘‘A arquitetura e as engenharia têm de buscar sempre respostas a essas novas necessidades, criando condições para auxiliar a medicina a melhorar o atendimento das pessoas e afastando definitivamente a visão medieval dos hospitais.’’

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