Ao contrário de boa parte dos artistas visuais de sua geração, Felipe Scandelari, 27 anos, não baseia seu trabalho na utilização de ferramentas digitais. Adepto das tintas e pincéis, ele representa por aqui uma nova tendência mundial, que surge como uma espécie de reação ao casamento entre arte e tecnologia: o ressurgimento da pintura.
"Me encanta esse lado quase primitivo da pintura, de ser algo feito por uma pessoa só", diz Felipe, recentemente selecionado para a edição 2009 do programa Rumos Itaú Cultural, uma das principais vitrines da área. A curadoria do projeto, que mapeia o melhor da produção contemporânea, escolheu 45 artistas de todo o país entre 1.600 inscritos. Ao longo do ano, seus trabalhos serão expostos em seis capitais brasileiras, incluindo Rio de Janeiro e São Paulo.
Mas se engana quem pensa que Felipe é um purista. Interessado em design, moda, cinema e videoarte, ele bebe de todas essas fontes sem perder o foco manual. Chega a tirar mais de 2 mil fotos dos objetos que vai pintar. E mesmo depois de concluir os quadros, continua registrando-os com sua máquina digital. "O elemento contemporâneo não está na técnica que se usa. Sou deste tempo, expresso o que vivo aqui e agora", afirma.
Suas telas trazem elementos e personagens reconhecíveis do cotidiano, porém o resultado beira o abstracionismo - o que ele define como "foto abstrata". "Ainda que eu retrate minha vida, o lugar onde moro, acho que o assunto dos meus quadros é a própria pintura", reflete.
Bacharel pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Felipe mantém um ateliê em sua casa, no bairro do Boa Vista, onde mora com a família. Os pais, ele conta, são os principais incentivadores, apesar de não serem artistas. "Não parava de desenhar quando era criança, parecia uma mania. Aos 7 anos, eles me matricularam no antigo curso de desenho do Museu Guido Viaro", lembra.
O artista vendeu sua primeira obra aos 15 anos. Desde então já foram 30, das 500 que produziu. Aliás, o aspecto comercial da carreira é uma de suas preocupações. "Querendo ou não, toda manufatura tem de gerar lucro. Não é coincidência que os grandes artistas têm as melhores cotações nos leilões".
Felipe deixa claro que não pinta pensando na venda. Só tem a coragem de apontar o que muitos de seus colegas "românticos" talvez não queiram enxergar. "Hoje em dia não dá mais para ser apenas artista. A partir do momento em que o quadro é concluído, você deve pensar como um empresário".
Envolvido com arte em tempo integral, ele revela suas metas a curto e médio prazo. Ainda em 2009, pretende inaugurar uma exposição individual na Casa Andrade Muricy e iniciar uma nova série de quadros. Terminada essa etapa, deve passar outra temporada fora do país - no ano passado, rodou pela Europa durante dois meses.
"O trabalho do artista é pesquisar, porque as coisas não vêm da gente, estão no mundo. Nesse sentido, ficar no Brasil é muito pouco", afirma, com a ambição saudável que todo artista deveria ter.

mockup