Multidões correndo de um lado para o outro. Mães tentando acalmar crianças choronas, agarradas a caixas de brinquedos. Homens usando roupa vermelha e barba branca postiça se arrastando pelos corredores abarrotados dos centros de compras com um enorme saco nas costas. Pedintes que se multiplicam pelas ruas. Listas intermináveis de presentes, contas e tarefas inacabadas que se acumulam sobre a mesa, festinhas do colégio, da empresa, do condomínio. Anúncios que ‘‘gritam’’ as ofertas imperdíveis que podem ser adquiridas a perder de vista.
  Parece o fim do mundo, mas é apenas o fim de mais um ano. A sensação, muitas vezes, é de que o dia-a-dia, conforme o conhecemos, está suspenso ou fora de ordem, no mês de dezembro. Surge a idéia de que tudo tem de ser feito mais rapidamente, o que leva muita gente a experimentar sensações desagradáveis, como angústia, ansiedade extrema, melancolia
e solidão.
  ‘‘Eu gosto do Natal para poder ficar com a família, mas nessa época tudo fica mais complicado’’, afirmava o motorista Décio Cubas, de 29 anos, que na sexta-feira passada saiu de São José dos Pinhais, na Região Metropolitana, com a mulher, Ivanise Guimarães, e as filhas Maria Eduarda, de apenas 2 meses, e Rafaela, de 5 anos, para enfrentar o tumultuado comércio do Centro de Curitiba. ‘‘Aqui tem mais variedade, mas se eu pudesse não passaria por isso, e logo no meu primeiro dia de férias’’, lamentava.
  Na correria das compras, Ricardo Alex de Freitas, de 21 anos, carregava sacolas com caixas de sapato de um lado para outro da Avenida XV de Novembro, se revezando entre as duas filiais da loja em que trabalha. Mas, empregado há poucos meses, garantia não estar aborrecido. ‘‘As lojas ficam mais cheias, mas se eu vender mais, a comissão aumenta’’, comentava.
  Uma pesquisa realizada em 2006 pela International Stress Management Association do Brasil (Isma-BR), associação sem fins lucrativos que estuda o estresse e suas formas de prevenção, revelou que 75% de homens e mulheres com idades entre 25 e 55 anos são atingidos por esse desconforto durante as festas de fim de ano. A entidade, com sede em Porto Alegre, ouviu 678 pessoas e metade delas afirmou precisar de medicamentos para enfrentar essa fase. Afinal, é mesmo difícil não se deixar contagiar pelas mensagens publicitárias típicas desse período que propagam a felicidade a todo custo, incentivam o consumo e reforçam determinados
padrões sociais.
  ‘‘As pessoas estão muito individualistas. Muita gente, ainda que tenha família, não tem com quem conversar, não consegue ser ouvido nem desabafar’’, afirma Quintino Dagostin, coordenador do Centro de Valorização da Vida (CVV) em Curitiba, que registra aumento do número de ligações durante essa época do ano. ‘‘Há quem ligue apenas para nos agradecer, mas já houve casos de pessoas que estavam em festas e ligaram pra cá porque se sentiam sozinhas mesmo estando com familiares e amigos’’, acrescenta. O CVV, presente há 27 anos na capital, presta apoio emocional por telefone e também pessoalmente, na sede da Água Verde. ‘‘Aqui não aconselhamos, nem direcionamos. Apenas ouvimos e acolhemos quem nos procura.’’ Os voluntários trabalharão inclusive nos feriados de Natal e Ano-Novo.

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