É a autoridade de quem reporta a vida da cidade há quase cinco décadas, a autoridade de um contador de histórias que se abastece com a mesma avidez de livros, documentos envelhecidos e de bate-papos intermináveis que faz o jornalista e historiador Widson Schwartz se instalar na mesa de uma lanchonete do centro de Londrina para discorrer sobre a alma da cidade.
  Ao falar de um lugar como quem fala de uma pessoa, é fácil entender que ele tem uma tarefa vitalícia: até o dia em que todos os enigmas de Londrina forem decifrados, o mestre vai enfrentar todas as dúvidas com sua habitual determinação. Fez muitas perguntas, publicou muitas respostas. Satisfez a curiosidade de tanta gente. Há uma questão, contudo, que ele ainda não se precipita em colocar ponto final: como e quem forjou o espírito londrinense?
  ‘‘Londrina é uma sociedade liberal, produto de uma colonização feita pela iniciativa privada’’, crava o especialista, referindo-se à Companhia de Terras Norte do Paraná, que loteou uma vasta área em pequenas e médias parcelas, derrubou a mata, abriu estradas e criou cidades na década de 1930. ‘‘Uma comunidade que foi construída com a marca dos empreendedores, grande parte deles imigrantes, principalmente alemães e árabes’’, afirma, com segurança.
  O espírito londrinense foi consolidado no pós-guerra, conta o jornalista. ‘‘Londrina foi a última fronteira dos imigrantes empreendedores, que investiram sua poupança aqui quando o País ainda vivia crise por falta de mercado para o café. A prosperidade veio na década seguinte, no pós-guerra. As forças políticas advinham deste universo de empreendedores bem sucedidos’’, explica.
  Foi assim, explica Schwartz, que as primeiras administrações municipais foram intimamente ligadas ao empresariado, que já tinha sua associação desde os primeiros anos da emancipação política. O empreendedorismo dos pioneiros e a administração pública funcionavam como uma parceria. Um complementava o outro. As decisões de governo eram tomadas sempre sob influência da vontade dos empresários.
  O ambiente liberal estava cristalizado nas ‘‘ótimas administrações’’ que se sucederam na prefeitura até a década de 1960, de acordo com a avaliação do jornalista.
  A classe dirigente multicultural – libaneses, japoneses e alemães – foi obrigada a conviver com o próprio espírito crítico que trouxe. O controle rigoroso das contas marcou as primeiras administrações. Um exemplo é o primeiro grande escândalo de corrupção, eclodido por causa da vigilância implacável da sociedade civil. Em 1941, o prefeito nomeado José Ferrário Lopes, foi demitido do cargo pela ditadura Vargas depois que a associação comercial denunciou um caso de corrupção envolvendo a construção da sede do Executivo.
  Schwartz lembra que todos os avanços importantes que a cidade experimentou no auge do desenvolvimento dos anos 1950 e 1960 tiveram participação deste empresariado multicultural, mesmo quando as decisões ficavam a cargo da esfera pública. Foram os casos da implantação de um moderno sistema de água e esgoto – a primeira grande estação de tratamento de água do Estado foi construída em Londrina – e da companhia municipal de telefonia (Sercomtel), que surgiu da cooperação do poder público com a iniciativa privada. ‘‘A participação da sociedade nas administrações ia muito além do pagamento de impostos’’, observa o jornalista.
  A sociedade civil organizada e participativa, o legado mais visível da alma liberal dos pés-vermelhos, fortaleceu e legitimou entidades que protagonizaram a vida pública da cidade, empurrando os governos em direção à vanguarda e à eficiência. Além da Associação Comercial, estão neste grupo o Clube de Engenharia e Arquitetura e a Sociedade Amigos de Londrina, entidades responsáveis pelo incremento da infraestrutura necessária após o sucesso quase instantâneo da colonização.
  O espírito liberal ficou adormecido a partir de meados dos anos 1970 durante a era que o historiador chama de ‘‘patrimonialista’’ (que não possui distinções entre os limites do público e os limites do privado), cujo maior símbolo são as administrações do ex-prefeito Antônio Belinati. ‘‘Este período quebrou o paradigma de Londrina, uma cidade de alma liberal’’, interpreta. Mas, lembra Schwartz, o caráter londrinense é latente, a característica de ‘‘não se conformar e corrigir rumos’’ continua vivo. ‘‘Estamos apenas na terceira geração nascida em Londrina e o espírito dos pioneiros continua impregnado na população. A maior prova são as últimas eleições’’, afirma o jornalista, lembrando que a eleição do empresário Alexandre Kireeff (PSD) em outubro – para ele, um ‘‘basta’’ – pode significar uma nova fase, ‘‘condizente com os princípios que fundaram a comunidade’’.
  Para Schwartz, Londrina e a grandeza foram feitos um para o outro. Para sempre.


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