O prato cheio de comida e uma aparente vivacidade enganam. Crianças indígenas da Reserva do Apucaraninha, em Tamarana (62 km ao sul de Londrina), também sofrem de um problema grave que atinge a população indígena em todo mundo - a a desnutrição. A realidade ficou evindenciada com a divulgação, no final do mês passado, do relatório ''Garantindo os Direitos de Crianças Indígenas'', pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). O documento mostrou uma situação de marginalização da criança indígena, que sofre com altas taxas de mortalidade infantil, falta de cuidados médicos e pouca oferta de escolas.
Na reserva dos índios caingangues do Apucaraninha, a alimentação precária das crianças, e também dos adultos, é evidente. Feijão, arroz, ou macarrão, ''enchem'' os pratos. Carne raramente faz parte do cardápio. Peixe, por causa da poluição dos rios que banham a região (Apucarana, Apucaraninha e Tibagi), também é escasso. As plantações de milho, mandioca, banana e laranja contribuem um pouco para a variedade alimentar, mas não o suficiente para garantir uma alimentação adequada. ''Não é que eles não ttenham comida. Têm, mas falta a proteína da carne, a vitamina das verduras, é uma alimentação deficiente'', constata a antropóloga e coordenadora do programa de atendimento aos caingangues da prefeitura de Londrina, Marlene de Oliveira.
Essa carência de nutrientes na alimentação faz estragos - cerca de 12% das crianças com até cinco anos de idade estão desnutridas e 19,6% estão em situação de risco de desnutrição. Esses índices propiciam também uma alta incidência de outros problemas de saúde, como as doenças respiratórias, agravadas pela fumaça dos fogões à lenha, e infecto-parasitárias. As doenças respiratórias, como bronquite e asma, além das diarréias e vermes, atingem de 30% a 50% da população indígena, segundo o médico Claudinei da Silva Souza, que atende há quatro anos na reserva.
Cleicimar de Oliveira, de 2 anos e nove meses, é um exemplo entre as cerca de 250 crianças da aldeia com até cinco anos de idade. Ele já esteve em risco nutricional, eventualmente tem diarréias e na última semana a mãe, Maria Aparecida de Oliveira, de 24 anos, levou o menino ao posto de sa© úde por causa de um resfriado. A comida preferida dele é sopa de macarrão, mas ''quando não tem, ele come qualquer coisa''. Ter alimento em casa é uma preocupação constante da mãe: ''o pai dele não é bom de saúde e se ele não trabalha na roça a gente fica sem comida''.
O caso de Cleicimar, que no posto de saúde devorava várias balas, ilustra bem outra situação que também colabora para a desnutrição entre as crianças - os maus hábitos alimentares ''aprendidos'' dos brancos. Andando pela reserva não é difícil presenciar crianças com pacotes de salgadinhos e balas nas mãos. As guloseimas já fazem parte da dieta alimentar deles, constata a enfermeira Rosana Batista Câmara, muitas vezes substituindo a alimentação. ''As mães não têm esse discernimento. Dando salgadinhos, elas acham que não precisam dar outro tipo de comida'', relata.
As consequências da desnutrição podem ser graves, culminando em indivíduos ''com desenvolvimento abaixo do esperado, mais debilitados e vulneráveis à doenças'', explica Rosana. Problema antigo na comunidade, segundo Souza, a desnutrição pode ser a causa do índice mais alto de doenças nos adultos indígenas ''se comparados com os brancos''.

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