Alimentação de qualidade, ocupação e mais renda
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quarta-feira, 10 de outubro de 2018
Luana Borges <br> Especial para a FOLHA 
Quando a geada de 1975 devastou a agricultura do Paraná, muitas pessoas se mudaram do campo para a cidade. No novo endereço, se depararam com condições precárias de vida. Sem água, luz e nem ruas asfaltadas, a situação dos moradores de Cambé passava longe da dignidade. Para resolver parte dos problemas da região, seu Abel Feitosa teve a ideia de criar uma horta comunitária. Assim que conseguiu um terreno junto à Prefeitura, ele mobilizou a população em torno de sua empreitada, que nasceu no Jardim Tupi. De lá para cá, o projeto se expandiu. Hoje, Cambé abriga 24 hortas, sendo que a 25ª está em fase de finalização.

A iniciativa se mostrou tão bem-sucedida que cidades vizinhas como Rolândia, Arapongas e Maringá, entraram em contato com o intuito de fazer algo semelhante. O êxito ultrapassou a fronteira nacional e chegou a representantes da Alemanha e da Guatemala, que também se interessaram pelas hortas orgânicas. Em 2018, a solução que mudou o panorama da população completa 35 anos. "É um trabalho importante que ajuda muita gente. Se a pessoa está desempregada, ela pode ter uma horta e vender 10 reais de verdura em um dia, por exemplo. Com esse dinheiro, dá para comprar um pacote de arroz. Na próxima semana, ela vende mais 10 reais e compra açúcar. Não é que resolva o problema, mas ajuda", pondera seu Abel, do alto da sabedoria de seus 90 anos, completados no último dia 10 de agosto.
Ao todo, são cerca de 830 famílias envolvidas nas hortas comunitárias, cada uma responsável pela produção de seu próprio pedaço de terra. Há quase três décadas, Antônia Maria de Oliveira, 66, saiu da Bahia em busca de melhores condições de vida. Foi em Cambé, mais especificamente na horta do Jardim Tupi, que ela encontrou seu lugar, onde está há 27 anos. Além de trabalhar na plantação e na colheita, dona Antoninha mora em um casebre construído dentro da horta, que ocupa uma área de cerca de 1,5 alqueire - a maioria das hortas têm entre 2 e 5 mil metros quadrados. "Eu já sou um pé de couve daqui", brinca ela, que, diga-se de passagem, não gosta de comer salada. A rotina nas hortas comunitárias também se tornou uma ocupação para muitos aposentados. Com o objetivo de preencher seu tempo livre, José Ramos Ferreira, mais conhecido como Paraná, passou a cuidar de um pedaço de terra há 5 anos. Desde então, sua vida ganhou um novo sentido. "Para mim, é um alívio. A gente fica no meio dos amigos, um brinca com o outro e assim vamos levando", conta o aposentado. Maria Gomes Pereira está há 28 anos na horta do jardim Ana Rosa Antes, e cuida da organização dos canteiros. "Antes de eu tomar conta , era tudo bagunçado. Um passava o canteiro para o outro. Agora eu faço uma lista de espera para organizar quem quer ter um pedaço de terra."
Para manter o projeto em pleno funcionamento, a Prefeitura de Cambé investe R$ 250 por família a cada ano. Além disso, promove alguns incentivos: arca com as despesas de água, fornece adubo e sementes e faz a terraplanagem. "Algumas hortas organizam uma reunião mensal e cada pessoa paga um valor, em torno de R$ 5. Esse dinheiro é usado para manutenção", conta Odair José Paviani, diretor do departamento de Agricultura da Secretaria do Meio Ambiente. Das 24 já estabelecidas, três hortas recebem ainda ajuda financeira da Eletrosul, que doa R$ 3 mil por ano para cada uma, desde 2013 - o contrato vence em novembro e a Prefeitura de Cambé tem a expectativa de renová-lo. Com o dinheiro, são comprados materiais necessários para a manutenção das hortas Jardim Fávaro, Jardim Boa Vista e Jardim União. A prefeitura presta contas à empresa. "Existe a possibilidade de o número de hortas aumentar, mas depende da inciativa da comunidade. A gente não força ninguém a montar horta. Quando vemos interessados, apoiamos", explica José Roberto de Matos Amaral, Secretário Municipal de Agricultura e Meio Ambiente.
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CLIENTES FIÉIS
Entre as verduras mais plantadas estão alface, couve, almeirão, salsinha, cebolinha e coentro. Além de complementar a alimentação das famílias envolvidas no projeto, a produção das hortas acaba gerando uma renda extra. Alguns trabalhadores carregam os alimentos em um carrinho e andam pela região vendendo o excedente. Mas grande parte da comercialização acontece dentro das próprias hortas. Há 35 anos, desde a inauguração do projeto, Antônia da Silva, 69, compra hortaliças no Jardim Tupi. Costureira aposentada, ela é cliente fiel de Maria José Alexandre, 85, que apesar da idade, só deixa de trabalhar em dia de chuva forte. "Já comprei de outras pessoas, mas, como a gente fez muita amizade, compro mais dela", esclarece. A aposentada Elisa Alves de Souza Gonçalves, por sua vez, prefere variar. Dependendo da qualidade das verduras, ela escolhe um produtor ou outro. "Compro das hortas comunitárias desde que parei de ter a minha. Na época, eu trabalhava e não tinha tempo de cuidar da plantação direito. Então passei a comprar", lembra Elisa.

A possibilidade de ganhar uma renda extra é apenas um dos benefícios que as hortas comunitárias geram para as famílias. Existem vários casos de pessoas que se curaram da depressão depois que passaram a cuidar de um pedaço de terra. Um deles é o de Márcia Alves de Oliveira, 43. Há 11 anos diagnosticada com depressão e bipolaridade, ela encontrou no trabalho na horta uma forma de cuidar de sua saúde mental. Recentemente, inclusive, recebeu alta das sessões de terapia. "Não tem tratamento melhor que poder vir aqui e mexer na terra. Quando estou em casa com pensamento ruim, eu só atravesso a rua e venho para a horta", pontua Oliveira, que cuida de um canteiro há 10 anos no Jardim Ana Rosa.
Para o secretário Amaral, o projeto das hortas comunitárias acaba influenciando diretamente na gestão da saúde pública de Cambé. "Se os idosos estivessem em postos de saúde, sairia muito mais caro para a prefeitura. Na horta, eles têm alegria de viver. Enquanto estiverem ali, a saúde vai ser melhor", defende.


