Alerta vem no apito do trem
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terça-feira, 03 de junho de 2008
Thiago Alonso<br> Equipe da Folha 
''Lá vai o trem sem destino/ pro dia novo encontrar/ correndo vai pela terra/ vai pela serra/ vai pelo mar''. Longe do lirismo da letra escrita pelo poeta Ferreira Gullar para parte das Bachianas Brasileiras nº 2, peça composta pelo erudito Heitor Villa-Lobos, os cruzamentos com linhas férreas, as chamadas passagens de nível, oferecem muito mais perigos que a maioria dos motoristas e pedestres possam imaginar.
Dados da América Latina Logística (ALL), empresa responsável por administrar os trens que cortam o Paraná e outros cinco Estados, dão conta de que os cruzamentos férreos com estradas e rodovias ainda são responsáveis por acidentes. Muito por causa da imprudência dos motoristas. Entre janeiro e abril deste ano aconteceram três abalroamentos, como é chamado o choque entre um carro e um trem, nos cruzamentos de Curitiba e Região Metropolitana. No ano passado, foram seis. Estima-se que em temporadas de escoamento da safra agrícola, como acontece atualmente, cerca de 30 trens cruzem a RMC por dia.
A redução dos níveis de abalroamento se deve a campanhas realizadas pela ALL desde 2001, com o intuito de minimizar a frequência e o número de acidentes dessa espécie. A empresa realizou mais uma campanha de prevenção ontem, em Pinhais, nas passagens de nível que existem na rua Camilo Delellis e na rodovia João Leopoldo Jacomel, onde o fluxo de carros e pedestres é grande e as chances de acidentes aumentam. As campanhas acontecem sempre entre os meses de maio e agosto no seis Estados em que a ALL possui trens. Em Pinhais, a mobilização aconteceu em parceria com a Polícia de Trânsito Municipal. No Paraná, 70 cidades são cortadas por linhas de trens.
Em quase duas horas de ação, a equipe da ALL alertou motoristas e pedestres sobre os perigos dos cruzamentos. Nos oito anos de campanha, estima-se que mais de um milhão de pessoas tenham sido abordadas em seis Estados. O efeito está nos múmeros. Entre 2006 e 2007, o número de acidentes reduziu em 39%, contando todas as linhas de atuação da empresa. Mesmo assim, a prevenção é necessária para chamar a atenção principalmente dos motoristas, os grandes responsáveis por acidentes. Com pedestres, o número é quase nulo, segundo Carolina Goulart, coordenadora da campanha de segurança da ALL.
De acordo com ela, as normas de segurança seguidas pelos trens, torna impossível eles causarem acidentes. O problema, diz Carolina, está na imprudência dos motoristas. ''Intensificamos o alerta no inverno, quando o número de acidentes é maior. O frio aumenta a falta de atenção. Motoristas andam com vidros fechados, com som alto, estão sempre atrasados e apressados'', explica. Assim, acabam não prestando atenção na sinalização e no apito do trem.
O outro problema é que os motoristas sempre acham que dá tempo de cruzar a linha, o que nem sempre acontece. Além disso, a maioria das pessoas acredita que o trem pára. Sim, pára, mas leva de 500 metros a um quilômetro para que isso aconteça, depois do freio ser acionado pelo maquinista. No entanto, segundo o Código Nacional de Trânsito, a linha férrea é sempre preferencial. Todo motorista deve ficar atento ao apito emitido pelo trem quando está a 100 metros da passagem de nível. Este é o sinal de alerta da aproximação. Parar no cruzamento é dever do condutor. Aquele que não obedece está sujeito a multa de R$ 186,39 e sete pontos na carteira de habilitação.
Campanhas como a de Pinhas sempre surtem efeito, diz Carolina, mas são periódicas. Os motoristas devem ficar atentos as placas e faixas existentes e que ajudam a sinalizar as passagens de nível. Por isso, a atenção deve ser sempre redobrada.
É o que faz Cintia Pereira, 27 anos, que há duas semanas passou a cruzar a linha da rua Camilo Delellis todos os dias. Vive de um lado e atravessa para o outro para frequentar as aulas da auto-escola. ''É um perigo'', diz ela, se referindo ao cruzamento. ''O trânsito está cada vez mais feio'', completa.
Para Cintia, campanhas como esta sempre ajudam na conscientização. O motorista Narciso de Pádua, que sempre passa pelo cruzamento, concorda. Ele acredita que a campanha é interessante porque já ouviu falar de alguns acidentes no local. Prevenidos, agora motoristas e pedestres podem, como diz a canção de Chico Buarque, ficar ''esperando o trem que já vem, que já vem, que já vem, que já vem...''
Dicas de segurança
A campanha da ALL dá aos motoristas que costumam cruzar linhas férreas uma série de dicas para evitar acidentes com trens. O alerta também serve para pedestres.
- Ao cruzar a linha férrea, o motorista deve sempre parar, olhar e escutar a buzina emitida pelos trens nos cruzamentos com estradas e rodovias. Após a certeza de que não há nenhum trem vindo é que o motorista pode cruzar a linha.
- Caso ouça um apito, é necessário ficar atento, pois há grandes indícios de que um trem se aproxima.
- Pelo Código Nacional de Trânsito, a preferencial em um cruzamento é sempre do trem. Não parar no cruzamento é considerado infração grave, com sete pontos na carteira de habilitação e multa de R$ 186,39.
- O trem leva de 500 metros a um quilômetro para parar totalmente. O motorista, então, não deve ficar esperando que isso aconteça.
- Para maior segurança, é prudente nunca estacionar próximo à linhas férreas.
- Os danos de um acidente são imprevisíveis. Enquanto um carro médio pesa em torno de uma tonelada, um trem com 20 vagões pesa mil vezes mais.
Fonte: Programa de Melhoria de Segurança da ALL


