ALÉM DO PRÓPRIO UMBIGO - Você sabe o que é empatia?
PUBLICAÇÃO
domingo, 03 de fevereiro de 2008
Marilayde Costa<br>Especial para a FOLHA 
Em geral, as pessoas confundem empatia com simpatia, acreditando serem sinônimos. Mas existem diferenças nestes sentimentos. A simpatia ocorre quando há afinidade na forma de pensar entre duas ou mais pessoas, fazendo com que se aproximem. Já a empatia não exige simpatia, as pessoas podem se colocar no lugar das outras sem ao menos conhecê-las e sem que haja qualquer tipo de afinidade.
Ser empático é oferecer seu lugar a uma senhora em um ônibus lotado, é ajudar uma pessoa se levantar após um tombo, é ajudar quem está carregando muito peso ou um idoso a atravessar uma rua, é dar um abraço ou uma palavra a quem passa por uma situação extrema, é dar passagem no trânsito a quem está saindo da garagem. Em poucas palavras, é praticar gentileza com o próximo, não importando quem seja ou o que ele pense.
Consultamos psicólogos de três linhas diferentes de terapia (psicanálise, pisocodrama e hipnoterapia) para levantar diferentes enfoques sobre o mesmo tema. Todos foram unânimes em afirmar que uma pessoa só consegue se colocar no lugar do outro - ser empática - quando possui um profundo autoconhecimento e está bem consigo mesma. ''Só quando se está bem internamente é possível ouvir o outro, sentir o que ele está sentindo e dar colo ou ombro ao outro'', decreta a hipnoterapeuta, Eliane Marçal.
O psicanalista Ailton Bastos reforça esse conceito explicando que se a pessoa não estiver bem vai acabar fazendo uma identificação negativa. ''Sempre há uma identificação. É como se comparasse no outro algo que existe em mim. Se tenho a capacidade de estar seguro, o outro não vai ser ameaça e tenho mais condições de ser altruísta. Se eu não estou dando conta dos meus próprios sentimentos como vou dar em relação ao outro se eu não tenho uma auto-imagem positiva?'', questiona Bastos.
A psicodramatista Fernanda Rigon complementa que as pessoas que conseguem fazer a inversão de papéis, ou seja, colocam-se no lugar do outro, já atingiram uma significante maturidade psicológica. ''Para tanto é muito importante o reconhecimento do Eu, sem o qual não é possível reconhecer o outro. A inversão de pápeis é extremamente importante para o 'Ser' pois somente quando se coloca no papel do outro se consegue ter a dimensão do que o outro sente e, naturalmente, ocorre a troca, fortalecendo a relação interpessoal'', conclui.
Empatia hoje
No mundo de hoje, em que as pessoas estão correndo contra o tempo, em que a dinâmica da informação - fruto dos avanços tecnólogicos - nos coloca em uma aldeia global virtual e impõe maior rapidez na assimilação dos fatos e na tomada de decisões, olhar para o próximo está se tornado cada vez mais difícil.
Na avaliação da piscodramatista, atualmente, a maioria das pessoas não pára para pensar em si mesma, para se autoconhecer e, neste distanciamento, acaba focando tudo no outro e acreditando que até sua felicidade depende do outro. ''As pessoas se dão literalmente as costas para pensar no que o outro pensa ou acha, elas estão mais voltadas para o que está fora delas''.
Fernanda Rigon lembra uma frase: ''Não posso parar, se parar eu penso, se penso eu choro''. Para ela, a depressão permanece como a doença do momento há um bom tempo, porque são poucas as pessoas que se dispõem a olhar para si. ''Ao mesmo tempo em que o exercício de se olhar - de atender o 'Disk Eu' - é fascinante, também é sofrido'', explica.
Umbigocentrismo
A competitividade de hoje, em muitas situações, assume um caráter predatório, levando as pessoas a não se importarem e nem enxergarem a necessidade do outro. Prevalecendo apenas o querer individual. Neste processo, as pessoas acabam passando por cima de valores éticos e até morais, intimidando aqueles que estão mais próximos, seja no trabalho, na família ou nas relações afetivas.
O psicanalista Ailton brinca com esta situação dizendo que as pessoas estão vivendo uma ''síndrome de umbigocentrismo''. ''Elas acham que o mundo gira em torno de seu próprio umbigo. E nem todo mundo está preocupado com o que o outro sente. Existe uma competitividade não só do ponto de vista do mercado de trabalho, mas, no geral, as pessoas estão sempre disputando. E, dentro das próprias famílias, cada um está defendendo seus interesses'', avalia.


