Alegria não tem idade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 19 de março de 2007
Claudio Yuge<br>Equipe da Folha 
As histórias de vida e as marcas do passado podem ser diferentes. No entanto, o olhar, o cabelo branco e o entusiasmo são parecidos, talvez o que mais tenham em comum. Cinco personagens de contos comuns, como os de milhares de pessoas espalhadas pelas ruas e lares de idosos por todo o Brasil, mas que aqui se diferenciam um pouco por um detalhe: a paixão pela música, elemento transformador na vida dos integrantes do Velhos Guris, banda que vem se apresentando por vários cantos de Curitiba, em busca de carinho e compreensão e distribuindo alegria e esperança.
A banda Velhos Guris nasceu através de um projeto coordenado pela musicoterapeuta Claudimara Zanchetta, no Lar dos Idosos do Recanto do Tarumã, que fica bem próximo ao Estádio Pinheirão. O objetivo da música é trabalhar a auto-estima, sociabilizar o pessoal que vem pra cá, que vem de vários lugares, principalmente das ruas. Então, é importante para eles aprenderem a conviverem uns com os outros, explica Claudimara.
O local abriga aproximadamente 70 moradores, dos quais 50 participam do projeto de musicoterapia. A maioria dos moradores vêm das ruas, de famílias desfeitas ou porque não constituíram família, diz Claudimara. Hoje, com a musicoterapia, eles estão mais motivados, melhoraram a auto-estima. Trabalham mais a auto-expressão, falando das coisas que gostam e não gostam; estão compartilhando o mesmo espaço e cuidando um do outro e aprendendo que são indivíduos dentro do coletivo, completa.
A partir do momento em que a musicoterapia começou a funcionar, a banda Velhos Guris passou então a se formar naturalmente. Já havia observado que alguns deles tinham facilidade com os instrumentos e eles começaram a me questionar mais sobre o assunto. Só que o musicoterapeuta não observa a questão estética. Mas como eles insistiram para me encontrar separado então resolvemos nos reunir, lembra Claudimara.
A partir daí, iniciaram os ensaios. Para mim é atendimento e para eles é ensaio, comenta Claudimara. O tratamento, então, começou e nunca mais parou. Hoje, apesar da saída de três integrantes um morreu e dois voltaram às ruas, substituídos por outros dois , o grupo de cinco velhinhos simpáticos e uma moça talentosa rendeu um CD, gravado em 2004, e várias apresentações.
O sexteto já fez shows em Festa Junina, na Câmara Municipal de Curitiba, em jantar dançante, no Mercado Municipal, entre outros lugares. Sempre levando muito samba e música popular e, claro, alegria, como a dos guris. E também buscando um pouco de atenção e solidariedade. As 11 releituras de canções conhecidas do repertório nacional custam apenas R$ 10, à venda na Socorro aos Necessitados, organização não-governamental mantenedora do Lar dos Idosos do Recanto do Tarumã. O telefone de lá é 0-800-645-1809 e mais informações podem ser obtidas pelo site www.socorroaosnecessitados.com.br.
Histórias de vida - Tão interessante quanto as músicas são os artistas que as tocam no Velhos Guris. Os atuais cinco integrantes têm características semelhantes: tiveram pouca sorte no passado, chegaram desacreditados há algum tempo no Lar dos Idosos e hoje enchem o peito de orgulho para falar sobre a paixão pela atividade no grupo.
Antônio Luiz de Oliveira, de 65 anos, toca pandeiro e canta no grupo Velhos Guris. Ele era casado, morou 22 anos em Araucária, na Região Metropolitana de Curitiba, e vendia bilhetes de loteria. Deixou três filhos para trás quando tornou-se alcoólatra, após a morte da mulher, que faleceu por problemas decorrentes da bebida.
Depois de muito tocar em bares, de brincadeira, enquanto consumia-se em seu vício, decidiu largar a antiga vida ao chegar no Lar dos Idosos, há seis anos. Há um ano e meio não bebo nada, a música me ajudou a esquecer o álcool, assegura.
Odamir Bartholomeu, de 74 anos, trabalhava com eletrônica e também já flertava como músico. Chegou no Lar dos Idosos há quatro anos e hoje, o atendimento do qual Claudimara citou é imprescindível para seu cotidiano. A gente chega aqui em um tratamento, né? Mas o pessoal gostou e hoje a preocupação da gente é isso aqui, procurar melhorar, referindo-se ao trabalho realizado com o Velhos Guris.
Na banda tem até mesmo quem garanta ter jogado profissionalmente pelo Atlético, nos anos 50. Fui goleiro em 52, no Atlético, e parei quando fiz 35 anos, assegura Altivir Bozza, o Cabelo, de 70 anos. Cabelo trabalhou em Curitiba com o pai, pregando tacos, por vários anos e afirmou gostar de música por ter crescido perto do blocos de Carnaval, dos quais conta ter participado de quase todos. Ele ainda recorda ter tocado acordeon, ter feito dupla sertaneja, de ter se apresentado em boate em Paranaguá. Hoje, no comando do afoxé no Velhos Guris, a sensação é de paz. Me sinto bem tocando, exalta.
Aos 85 anos, o mais velho do grupo parece ser o mais jovem. Edson Jorge, sempre sorridente e brincalhão, teve experiência com música depois da morte da mulher, cinco anos após seu casamento, aos 17 anos. Passei 60 anos viajando pelo Brasil inteiro, eu tocava pandeiro e violão e os hotéis me patrocinavam, explica. Autodenominado de Coringa do Pandeiro, hoje toca violão e canta no Velhos Guris. Faço minhas músicas, tenho músicas minhas mesmo, acrescenta.
Completa o grupo o ex-camelô José Ferreira da Costa, de 68 anos, que passou 20 anos trabalhando no comércio de Curitiba e chegou ao Lar dos Idosos há três anos e meio. Pratiquei ganzá e estou acostumado a tocar, revela,
ao segurar o ganzá, chocalho
que utiliza nas apresentações
do Velhos Guris. Perguntado
ser conseguiria se afastar da música ou das atuais atividades, Costa teve o coro dos companheiros de banda:
Não fico sem.


