Londrina tem a marca da inovação também na área da reciclagem. É uma das poucas cidades brasileiras a contar com duas Centrais de Tratamento de Resíduos – uma pública, outra particular. Por conta disso, é pioneira no uso de materiais reciclados na construção civil, segmento que mais provoca impactos ambientais. A reciclagem retira da natureza grande quantidade de entulho e o transforma em novos insumos para a própria indústria da construção, como areia, pedras, blocos, tijolos e outros tipos de agregados.
  E o setor de pesquisa da Universidade Estadual de Londrina (UEL) trabalha no desenvolvimento de painéis pré-fabricados que, além de baratear o custo de moradias, pode dar novos rumos ao sistema construtivo nacional e ajudar de maneira significativa a reconstrução do Haiti, país devastado por um terremoto em janeiro deste ano.
  O desenvolvimento dos painéis pré-fabricados é resultado da união de dois projetos acadêmicos: uma pesquisa sobre habitação para emergências e uma tese de doutorado para construção de painéis com tijolos cerâmicos. A tese é do professor do Departamento de Arquitetura da UEL, Adauto Cardoso, que adaptou o protótipo do painel para utilização de garrafas PET e material reciclado (areia, pedrisco) fornecido pela Kurica Seleta Ambiental.
  Já o projeto de habitações emergenciais é coordenado pelo professor Jorge Daniel de Melo Moura, que passou 15 dias no Haiti, logo após a tragédia de janeiro, como integrante de uma missão humanitária, para trabalhar como tradutor junto a equipes de médicos e enfermeiros, num país onde se fala francês.
  ‘‘A capital, Porto Príncipe, virou um grande entulho’’, conta Moura, a respeito do terremoto que matou 270 mil pessoas e deixou mais de 1 milhão desabrigadas. ‘‘Lá, as pessoas usam tijolos feitos artesanalmente, frágeis, com pouco concreto. Estima-se que existam no país cerca de 20 milhões de toneladas de entulhos.’’
  O desafio do projeto desenvolvido na UEL é criar tecnologia que também possa ser oferecida ao Haiti – o Exército brasileiro lidera a missão de paz da ONU que busca dar estabilidade social àquele país, o mais pobre das Américas. A meta é desenvolver painéis leves, com material potencialmente poluente ao meio ambiente, que barateie a construção de moradias e reduza o desperdício de materiais e beneficie inclusive os operários. Mas como pode apenas um novo produto mudar tanta coisa assim? Com a palavra, Adauto Cardoso.
  ‘‘Os painéis pré-fabricados podem dar novos rumos ao sistema construtivo nacional. A alvenaria tradicional é uma atividade complexa, de difícil coordenação e gerenciamento. Esse modelo já não é mais compatível com o Brasil de hoje, um país em desenvolvimento, com facilidade de crédito e escassez de mão de obra. É preciso industrializar a alvenaria, produzir painéis que saiam da fábrica completos, com esquadria, revestimento, acabamento, com material hidráulico e elétrico embutido e que, eventualmente, possa ter função estrutural, o que dispensaria pilares de sustentação.’’
  O uso de garrafas PET intercaladas no ‘‘recheio’’ do painel, além de deixá-lo pelo menos um terço mais leve, cria ‘‘vazios’’ que trazem conforto térmico maior que a alvenaria convencional. Há pelo menos outras duas grandes vantagens. Ao final de sua vida útil, o imóvel não precisaria ser implodido ou destruído a marretadas – e, sim, desmontado, praticamente sem resíduos. E a construção de um imóvel seria muito mais rápida, o que traria antecipação de lucro para os investidores, que quase sempre recorrem a financiamentos, pagando juros de mercado.
  Sob supervisão do professor Ederaldo Furlaneto, os primeiros protótipos foram construídos no campus da UEL na segunda quinzena de novembro. Cardoso prevê que o desenvolvimento do produto ocupe o primeiro semestre de 2011. Depois disso, o painel passará por avaliação de desempenho – em especial o de resistência mecânica – para então ser certificado pela Caixa Econômica Federal.
  ‘‘Trata-se de uma solução econômica e ambiental’’, acredita o professor. ‘‘Outros países já passaram por essa etapa, de uma construção civil de alvenaria para a industrializada. Está chegando a hora do Brasil.’’

mockup