Água na torneira ainda é sonho de muitos
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sábado, 06 de março de 2004
Fernando Rocha Faro<br> Reportagem Local 
Pelo menos duas vezes por dia, a desempregada Nilza Rufino de Souza, 41 anos, desce do Assentamento Marieta, na Zona Norte de Londrina, até o Córrego Passo Fundo. Uma longa caminhada, principalmente na volta, com os baldes cheios de água para o consumo da família. A água do córrego é utilizada para todas as necessidades das 66 famílias do assentamento. Com a mesma água, as famílias preparam comida, tomam banho, lavam roupa. O sofrimento das famílias do Marieta é igual ao dos moradores de, no mínimo, outras 14 comunidades de Londrina que não têm água encanada.
A realidade da família de Nilza é ignorada nas estatísticas da Sanepar. Os dados da empresa mostram números facilmente desmentidos pelo cotidiano dos moradores de assentamentos e ocupações urbanas. ''Lá no Jardim do Sol (Zona Oeste), onde a gente morava antes, tinha água encanada. As crianças não ficavam doentes. Agora, estão sempre com algum problema'', afirma Nilza. ''Para tomar banho e dar banho nas crianças, temos que esquentar a água em casa'', salienta o pintor desempregado Aílton Natalino da Silva Souza, 26, presidente da Associação dos Moradores do Assentamento Marieta.
De acordo com o gerente da Sanepar, Oscar Fernandes, a empresa não tem como identificar todas as áreas sem instalação de água. ''Estes assentamentos são uma realidade nova. Por isso não entram na estatística'', explica. Os números da Sanepar correspondem somente aos moradores que já possuem a ligação de água. Por isso, o índice atinge 99,74% de atendimento. Os 26% restantes são referentes a casas abandonadas, cujo desligamento foi pedido pelos últimos moradores. O índice de atendimento de esgoto, segundo a própria Sanepar, é de 67%.
Segundo Fernandes, a Sanepar prevê investimento de aproximadamente R$ 10 milhões para ampliação do sistema de água nos próximos seis anos. No mesmo período a empresa deve gastar R$ 24 milhões para aumentar a coleta e o tratamento de esgoto, com objetivo de atingir 80% da população.
O cadastro da Cohab mostra que cerca de 3 mil pessoas vivem hoje em comunidades sem ligação individualizada de água. A maior é o Jardim Monte Cristo (Zona Leste) com 504 famílias, onde o sistema de água encanada está sendo implantado. No Conjunto Novo Amparo II (Zona Leste), são 64 famílias que dependem de uma ligação de uma empresa vizinha para ter água para beber, tomar banho, cozinhar e lavar roupa. Se não fosse a solidariedade do dono da empresa, morar no local seria impossível já que não há nenhuma fonte de água por perto.
O dia-a-dia da desempregada Josiane de Oliveira Carmona se resume a encher e carregar baldes com água. ''É o dia inteiro carregando água para lavar roupa e dar banho nos quatro filhos'', queixa-se. ''Se tivesse água na torneira, a gente não ia cansar tanto. Eu levo um dia inteiro para lavar toda a roupa'', reclama.
Para a dona de casa Joana Bezerra da Silva, 44, a chuva prejudica ainda mais o dia-a-dia da comunidade. ''Quando chove a gente fica sem luz. Mas o principal é a água. Sem água a gente não faz nada, não come, não toma banho'', constata. Joana conta que antes de mudar para o assentamento, morava no Jardim São Jorge (Zona Norte), onde há água encanada: ''É muito difícil esta mudança. Para não cansar tanto, agora eu pego água só de manhã''. O comerciante Luís Rodrigues da Silva, 49, vice-presidente da Associação de Moradores do bairro, resume: ''O sonho de todo mundo é ter água e luz em casa. É muito importante.''


