Os vizinhos de Paulo Toguti, no Jardim Castelo, zona leste de Londrina, podem se considerar privilegiados. Basta bater palmas na casa dele para conseguir o que hoje parece ser impossível em feiras e mercados.
– Seo Paulo, me dá um real de alface e cebolinha.
E logo aparece o dono da casa com um maço que, além de generoso, tem outra vantagem: são verduras totalmente livres de agrotóxicos.
Ao se aposentar, no início deste ano, Paulo Yoshio Toguti meio que resolveu voltar às origens. Natural de Pompéia-SP, filho de japoneses de Okinawa que desembarcaram do lendário Kasato Maru, chegou a Londrina aos seis anos de idade e com a família, desde cedo, lidou com a terra em uma chácara arrendada onde hoje é o Conjunto Lindóia.
Depois de montar e desmontar sua barraca de batatas e cebolas pelas feiras da cidade durante 25 anos e outros tantos como dono de padaria na velha área central, abaixo da linha, aposentou-se, aos 70 anos. E transformou toda a frente e também as duas laterais da casa, na esquina da Rua Ceará com o estádio da Vila Santa Terezinha, em espaço para o cultivo de hortifrútis e plantas ornamentais.
Com uma rápida passada de olho no que seria o jardim é possível identificar repolho, alface, almeirão, salsinha, cebolinha, beterraba e pés de couve, tomate e pimentão, além de quatro ou cinco coroas de abacaxi à espera dos primeiros frutos. As hortaliças são entremeadas por roseiras, babosas, antúrios, comigo-ninguém-pode, falsas bananeiras, samambaias.
– Depois dos 70 não se acha mais emprego. Se fosse mais novo, iria para o Japão, ficar com meu irmão, minha filha e meu neto. Aqui dá para passar o tempo, tirar o estresse. Fico direto mexendo aqui e ali.
Ao longo do muro que dá para o vizinho, tábuas intercaladas com antigas bancadas apoiam dezenas de pequenos vasos nos quais Paulo cultiva orquídeas – de diversas espécies – com a mesma receita com que trata as plantas comestíveis: adubo, água, algum esterco e uma dose cavalar de dedicação.
– Meu maior interesse são as orquídeas. Sensibilizo mais com flor. Mas pra mexer com orquídea é preciso paciência, pelo menos dois anos para uma ficar pronta. Os vasos eu vendo por R$ 10, R$ 20, R$ 30, depende... Margem de lucro não dá. É só mesmo para descontar a água, o adubo, as sementes.
Uma estufa improvisada na área de secar roupa abriga um pé de uva – Toguti lamenta ter um só, porque não acha muda para comprar. Próximo da calçada que liga o portão ao alpendre, repousam alguns saquinhos com mudas de poncã, caqui e limão, para os quais o dono do pedaço tem um plano ambicioso.
– Vou experimentar fazer bonsai. Perdi a chance de aprender com um japonês aposentado de Rolândia, que morreu faz uns 20 anos. Agora vou ter de aprender sozinho. Daqui uns dois anos vou saber se deu certo.
Enquanto atende a vizinhança e aguarda o resultado do experimento, Paulo Toguti ensaia procurar a prefeitura a fim de pedir autorização para cultivar uma horta comunitária em um pedaço de terra ao lado do campo de futebol, em parceria com um vizinho que, segundo ele, mantém a área limpa na base da enxada, para que o mato não cresça e incomode quem mora parede-e-meia com o estádio.
– Se parar, fica doente, né?

Imagem ilustrativa da imagem AGRICULTURA SUSTENTÁVEL - Palmas para Toguti
| Foto: Saulo Ohara
Paulo Toguti em casa: dedicação gera flores e hortaliças que vizinhos compram a preços módicos