Agricultura: o melhor e o pior negócio - José Francisco Galli
Agricultura: o melhor e o pior negócio
José Francisco GalliOutro dia um amigo me chamava a atenção para o fato de o Brasil viver hoje uma crise de qualidade em todos os setores. O país da Bossa Nova é agora o país dos tchans. Tudo parece estar se degradando. No campo, acabamos de responder pela vergonhosa safra de 80 milhões de toneladas. Não temos as condições mínimas para os investimentos necessários e, por isso, produzimos pouco. E produzindo pouco, nossa renda diminui cada vez mais. Parece que ninguém pára pra pensar. Como se fôssemos todos marionetes. Como se não fosse possível fazer nada para mudar esta situação. Será este o Brasil que desejamos?
Por mais paradoxal que pareça, a agricultura brasileira pode ser o pior ou o grande negócio do próximo século. A população mundial acaba de atingir a marca de 6 bilhões de habitantes e se houver a percepção de que há risco de fome em nosso planeta, é possível que o governo se dê conta da importância que a agricultura brasileira terá para o mundo neste cenário sombrio que se desenha. Somos o único país com capacidade de expandir a atividade agropecuária. Temos condições de aumentar em 100 milhões de hectares as áreas plantadas e triplicar a produção.
Por outro lado, se mudanças no sentido de garantir a tão esperada (e prometida) política agrícola não ocorrerem, não vejo futuro para a agricultura. O processo de desvalorização cambial nos penalizou ainda mais. Os insumos subiram e os preços de nossos produtos caíram. Com uma matemática assim, não há como prever nada de positivo em nossos horizontes.
Os governos federal e estaduais sabem disso, mas não se preocupam. Só enxergam a agricultura como uma fonte de renda para equilibrar a balança e não se dão conta de que estão matando a galinha dos ovos de ouro. Gastam o dinheiro público sem nenhuma cerimônia para implantar uma equivocada política de industrialização, incapaz de garantir a renda e os empregos que o Brasil precisa. Deixam, com isso, de priorizar a verdadeira vocação brasileira e o único setor em que temos condições de competir no mercado mundial.
Fomos a âncora de sustentação do Plano Real e o único setor a responder com um superávit positivo. Por tudo isto, mereceríamos um tratamento especial. Não me refiro a privilégios, mas a medidas que simplesmente garantam a viabilidade econômica da atividade.
Em vez disso, o governo continua cometendo os mesmos erros absurdos. Em plena colheita de café, leiloa seu estoque e não toma nenhuma medida para assegurar o preço ao produtor. Vivemos a cada comercialização sob o risco da queda violenta de preços. Não há recursos para vendermos com tranquilidade.
Sem rentabilidade, o agricultor não tem como manter-se na atividade. Os produtores acabam perdendo tudo para os bancos. E em meio a esta total falta de perspectiva, o governo se compromete a promover a Reforma Agrária. Ou seja, quer levar para o campo um trabalhador que não terá renda para se manter.
Em vez de incentivos, como fazem todos os países inteligentes, por aqui, pesa sobre a produção agrícola uma excessiva tributação. Em contrapartida, somos obrigados a encarar uma concorrência desleal com os produtos estrangeiros que, além de receberem subsídios em seus países, entram sem taxação no Brasil.
O governo também não enxerga o potencial do nosso mercado interno. Ou sabe, mas nada faz, porque esbarra num grave problema, que é de todos os setores: para se alimentar melhor, o brasileiro precisaria ganhar melhor.
O agronegócio responde por 35% do PIB nacional - uma atividade com uma enorme capacidade de expansão, desde que receba os estímulos necessários. É preciso incentivar a criação de pequenas indústrias regionais, agregando valor ao que o agricultor produz e aumentando a sua rentabilidade. A verdade é que temos todas as condições favoráveis para liderar o agronegócio no mundo. E visto dessa forma, as perspectivas seriam excelentes. Mas não há vontade política para promover as mudanças necessárias nesta direção. Uma falta de visão difícil de entender e mais difícil ainda de explicar.
José Francisco Galli é presidente da Sociedade Rural do Paraná





