Acompanhava meu pai, internado em um hospital, quando, no início da noite, uma enfermeira entrou apressada e perguntou se tínhamos como fazer doações de materiais de higiene pessoal para um dos pacientes. Segundo explicou, ele era carente e o hospital não fornecia tais produtos. ''Hoje eu não tenho mas posso pedir aos familiares que vêm visitar meu pai''. OK. Ela deixou o número do quarto e eu fiz os telefonemas pedindo para incluir sabonete, shampoo e outras coisas entre os pertences que minha mãe traria na manhã seguinte.
Logo cedo, sacola em punho, fui ao quarto indicado pela enfermeira. Uma moça abriu a porta e eu entrei. O médico, que fazia a ronda, examinava um dos três pacientes da enfermaria, um velhinho que parecia bastante aborrecido. O jovem médico tentava acalmá-lo. Ele, de todas as formas, tentava convencer o médico de que estava bem. Não sentia mais nada. Queria ir embora. O médico disse-lhe que ainda precisava de tratamento e devia realizar outros exames a fim de identificar melhor seu quadro. Compreensivo, o médico lhe disse: ''Olha seo João, quando sua família chegar, podemos conversar melhor a respeito de sua alta''. O senhor olhou-o profundamente revoltado e cruzou os braços, afundando-se na cama de hospital, emburrado. ''Ixe, agora danou-se. Nunca mais eu saio daqui''.
O médico não entendeu o porquê de tanta ofensa. A enfermeira chamou-lhe de canto: ''Doutor, o paciente não tem família, foi trazido pela polícia militar que o encontrou passando mal na rua''. Terminado o exame, entreguei os produtos e saí. Passei o dia melancólica pensando na realidade daquele idoso, abandonado, e nunca esqueci seu olhar triste, nem sua expressão: ''Ixe, agora danou-se''.

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