Leandro TaquesQuase mil pessoas lotaram a Rave na madrugada do último sábado, numa festa que acabou às 8h do domingoCuritiba, domingo, sete da manhã. A pista de uma das boates mais badaladas da cidade explode com o autêntico som techno europeu, embalando quase mil pessoas que não apresentam nenhum sinal de cansaço. Por mais inacreditável que possa parecer, aqueles animados boêmios estavam dançando sem parar há quase cinco horas. Isto é (ou foi) uma After Hours, festas que começam a serem descobertas pelos curitibanos. Elas tradicionalmente começam de madrugada e terminam na manhã de domingo, após servido o café-da-manhã.
Dez anos depois de se instalarem na Europa e quase cinco após serem assimiladas pelos paulistas, as After Hours aterrisaram em Curitiba. A Rave, que apresentou nesta semana a sua terceira edição, fez uma festa ousada para Curitiba, mas amadora se comparada as dos grandes centros, acostumados com acontecimentos muito mais descolados.
O restrito mundinho clubber da cidade não apareceu e a festa foi invadida por mauricinhos e patricinhas que, sem dúvidas, estavam se divertindo, mas com propósitos totalmente diferentes dos originais.
Nada de pessoas montadas, ou seja, vestidas de acordo para encarar uma noitada onde os ritmos garage e house iriam dar as ordens. Não havia também o ‘‘astral’’ comum às After Hours, onde dançar é a palavra-chave e azarar não é preocupação para ninguém.

Kraw PenasA inglesa Alexandra Carter, recém chegada de Londres, dançou até as 7h e confessou estar surpresa: ‘‘achei que no Brasil só existisse samba’’‘‘Esta festa está alucinante, entupida de mulher bonita’’, gritava o universitário Luís Alves da Cunha, 19 anos, contrariando o primeiro mandamento da proposta inicial da noite. Como ele, centenas de outros adolescentes não prestavam atenção na perfeição do som ou das luzes da festa, produzidas com cuidado para um público bem mais exigente do que o que recebeu.
Luzes e som, aliás, foram o único detalhe em comum entre a réplica curitibana e as After Hours originais. O DJ Leozinho, recém chegado de uma turnê pelas melhores casas noturnas da Europa, deu um verdadeiro show, elogiado pelas poucas pessoas presentes que estavam entendendo o que acontecia.
‘‘O som é exatamente o mesmo que eu ouço em Londres’’, confirmou a inglesa Alexandra Carter, 24 anos, que dançava empolgada ao lado da pista. Ela chegou em Curitiba há menos de um mês e confessou ter se surpreendido com a festa.
‘‘Em Londres eu ia direto a estas festas, que lá chegam a durar dois dias consecutivos, e jamais imaginei que fosse encontrar algo parecido no Brasil’’, disse ela. Alexandra pretende passar no mínimo um ano em Curitiba, onde já está atuando como professora de inglês.
‘‘Na Inglaterra as pessoas pensam que no Brasil só existe o Carnaval, ou festas similares, movidas à samba’’, contou a londrina. ‘‘É bom saber que as pessoas também se divertem por aqui com a boa música européia’’.
Ao ser perguntada sobre os homens brasileiros, ela respondeu que sem dúvidas eles são muito interessantes, mas ‘‘nesta festa eu só me preocupo em dançar’’, completou.
Com objetivos totalmente diferentes de Alexandra, perto dela, um grupo de curitibanas tinha a principal preocupação em ‘‘se dar bem’’, ou seja, encontrar alguém legal para ficar na festa.
‘‘Eu e minhas amigas saímos direto: aqui, na Konys ou no Alles Bier, mas o mercado está concorrido’’, brincou a estudante Natália Reis, loiríssima, 18 anos. ‘‘Aqui mesmo, tem muito mais mulher do que homem’’, disse ela.
Propostas ou objetivos à parte, Curitiba mostrou, ao menos, que já sabe o que acontece pelo mundo. Enquanto os boêmios namoravam, dançavam e se divertiam ao som de batidas ensurdecedoras, do lado de fora o sol de inverno começava a aquecer as ruas tranquilas do Batel, onde os pássaros cantavam despreocupadamente.

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