Um bate-papo com o astrônomo Augusto Daminelli é momento dos mais agradáveis. Ele fala de coisas fantásticas como se fossem as mais simples do mundo. Até parece uma prosa de varanda, mas que trata de assuntos como a estagnação da Via Láctea, que no seu auge produzia mil estrelas por ano e hoje não produz mais do que três; ou dos cometas, que trouxeram água e outros compostos para a Terra há muitos e muitos anos. Ainda hoje, 40 mil toneladas de poeira de cometas caem em nosso planeta anualmente.
  Porém, é inevitável que a conversa tome o rumo da Eta Carinae, a estrela que deixou Daminelli famoso pelo mundo afora, embora, diga-se de passagem, ele já desfrutasse de grande respeito no cenário científico antes de estudar a tal estrela. Em uma pesquisa rápida na internet, por exemplo, é fácil achar uma entrevista que ele concedeu em 1987 à Revista SuperInteressante para falar sobre o telescópio Hubble.
  ‘‘Quando decidi estudar grandes estrelas, apaixonei-me pela Eta Carinae, porque ela era a ‘Miss Galáxia’, a maior, a mais brilhante e tinha lá as suas esquisitices.’’, justifica. As esquisitices às quais o ibiporãense se refere é o fato de a estrela ter dois tipos de canais de energia, o que ocasionava uma diminuição regular em seu brilho.
  ‘‘Como tinha dois emissores, logo imaginei que seriam duas estrelas. Fui para o telescópio e comecei a observar. Sabia que se tivesse sorte uma passaria na frente da outra. De repente, em 1992, deu certo. Os canais de alta energia começaram a apagar, o equivalente a sessenta sóis por dia, o que é pouco para a Eta Carinae, mas o suficiente para concluir que um tipo de eclipse estava acontecendo. Ou seja, uma estrela estava passando na frente da outra, então se tratava de um sistema binário. Publiquei isso em revistas internacionais, mas ninguém acreditou.’’
  Os ‘‘apagões’’ da Eta Cariane começaram a ser registrados em 1948, mas eram interpretados como pulsações irregulares. O mundo da astronomia queria uma prova concreta de Daminelli sobre a sua descoberta. Alguns cientistas chegaram a mencionar o fato de o brasileiro ter feito as suas pesquisas em um pequeno telescópio em Brazópolis, interior de Minas Gerais.
  Daminelli calculou que os apagões aconteciam a cada 2.020 dias. O fenômeno se repetiria em 1997, quando, definitivamente, o reconhecimento aconteceu.
  ‘‘No meio tempo entre a descoberta e o reconhecimento comecei a receber inúmeros convites para ser sabatinado em diversos simpósios científicos internacionais. Isso é o paraíso para o astrônomo. É maravilhoso debater com alguém que você tem como ídolo.’’
  Contudo, somente em 1997, com o reconhecimento definitvo de sua descoberta as coisas começaram a mudar. Pela primeira vez ele pôde utilizar o telescópio espacial Hubble e tornou-se professor nos Estados Unidos, na Universidade do Colorado.
  ‘‘Minha quantidade de trabalho aumentou brutalmente. Colocaram US$ 10,5 milhões na minha pesquisa. Fiquei dois anos nos Estados Unidos, mas eu quis voltar. Sou ligado à minha terra, tinha de contribuir para o avanço da astronomia brasileira e isso eu só poderia fazer estando aqui’’, relata.
  Atualmente, Augusto Daminelli é professor titular e chefe do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAGUSP) e representante do Brasil para o Ano Internacional da Astronomia, que acontece em 2009, quando será comemorado o aniversário de 400 anos da invenção do telescópio por Galileu Galilei.
  ‘‘Aqui no Brasil, em especial, queremos acabar com esse atraso histórico de quatro séculos. A grande maioria das pessoas nunca viu, por meio de um telescópio, as crateras da lua ou as luas de júpiter, por exemplo. Queremos dar a oportunidade de observar o que Galileu viu para um milhão de pessoas’’, finaliza. (W.S.)

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