Encravado no vale do Rio Ribeira de Iguape, quase na divisa com o estado de São Paulo, o município de Doutor Ulysses (117 km ao norte de Curitiba) é um exemplo claro do quanto a falta de estrutura de transporte contribui para relegar toda uma comunidade ao atraso. Simplesmente não existe qualquer via asfaltada que leve até a cidade. Dentro do município a pavimentação também é precária. Alguns resquícios de asfalto são vistos somente nas duas ruas principais.
Enquanto esperam que se torne realidade a promessa do governo estadual de asfaltar os dois trechos da PR-092 que levam a Doutor Ulysses: 70 km até Jaguariaíva e 40 km até Cerro Azul, os 6,7 mil ulyssenses sofrem com a poeira e a dificuldade de deslocamento.
Sofrimento repartido - No fim das contas, a população acaba pagando caro pelo ''isolamento rodoviário''. O sofrimento começa no campo, onde moram 75% dos habitantes do município. Grande parte das terras cultiváveis estão ocupadas por madeira de reflorestamento, pricipalmente pinus, que abastecem as diversas indústrias de papel da região. No trecho até Jaguariaíva é comum encontrar caminhões carregados de madeira quebrados na estrada. Eles não resistem aos buracos e à trepidação.
Contudo, o sofrimento maior fica para os pequenos produtores que se dedicam à agricultura familiar. É o caso de Pedro José de Geraldo. Ele sustenta a mulher e os sete filhos com o dinheiro que consegue na lavoura de hortaliças e poncãs. ''Nossa mercadoria chega ao Ceasa de Curitiba muito desvalorizada, pois as caixas batem demais por causa dos solavancos da estrada'', lamenta o produtor.
Primeira marcha por 10km - Para estudar, as crianças que moram na Zona Rural também precisam enfrentar os buracos da 092 todos os dias. Em um ônibus lotado - no dia que a reportagem da FOLHA encontrou o veículo eram transportadas 86 crianças, 44 em pé -, o motorista Jader de Souza, prestador de serviços da prefeitura de Doutor Ulysses, faz uma linha de 35 km, passando também por estradas vicinais. Souza garante saber o valor da ''carga'' que leva. ''Dirijo com muito cuidado. Existem trechos perigosos. Chego a andar 10 km em primeira marcha'', explica o motorista.
''É cansativo demais estudar desse jeito. Ficamos muito tempo dentro do ônibus. Se pudesse fazer um pedido ao governador, diria que quero uma estrada melhor'', reivindica a estudante Edilaine das Neves, 13 anos, a primeira que sobe e a última que desce do ônibus.
Custos maiores e prejuízos - Já na Zona Urbana, os prejuízos continuam. A falta de asfalto acaba fazendo com que tudo chegue com um custo maior a Doutor Ulysses. Mais prejuízo. ''Enfrentamos grandes dificuldades para chegar até aqui. Quando chove é pior ainda, porque as estradas ficam intrasitáveis. Já aconteceu de termos de pousar na cidade por alguns dias, pois não era possível ir embora por causa da chuva. É inevitável que os produtos cheguem mais caros aqui'', relata o entregador de bebidas Gilberto Rodrigues dos Santos.
Quando o assunto é saúde, mais problemas. Sem hospital e com apenas dois médicos para atender emergências em um posto de saúde, o município precisa mandar todos os seus doentes para serem atendidos em Curitiba. Até mesmo as consultas médicas e exames laboratoriais são realizados na capital. ''São oito viagens por semana'', relata José Dalla Vecchia, secretário de agricultura da cidade.
Vida ou morte? - Literalmente, chegar ao socorro acaba se tornando uma questão de vida ou morte. A falta de um serviço de saúde adequado e a obrigatoriedade de deslocamento ganha contornos dramáticos nos 40km de curvas fechadas, subidas, descidas e pedras até Cerro Azul, onde o asfalto já chegou.
Há quatro anos, Áurea Branco da Silva viveu o drama de ver um filho morrer no caminho entre Doutor Ulysses e o socorro médico. Marcos Branco da Silva tinha 23 anos quando foi atingido nas costas por tiros disparados por um policial militar. ''Ele estava na praça, a 100 metros de casa, conversando com amigos, quando o policial chegou disparando. Marcos correu, mas foi atingido. Meus filhos o colocaram no carro e saíram em disparada. Porém, ele morreu no caminho'', recorda a mãe.

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