Gabriel Ferreira Medeiros planeja vender os exemplares de ''Histórias Legais'', seu primeiro livro, por dez centavos. De dez em dez, ele explica, vai longe. Como ele tem oito anos - escreveu o livro de 30 páginas ilustrado por suas pequeninas mãos aos sete - ninguém duvida disso. E no sábado, ao lado de outros quatro pequenos autores, o mais velho deles com onze anos, foi condecorado membro da Academia Brasileira de Letrinhas.
Gabriela Kuster Solyom, onze anos, colega do curso ''Escrevendo o meu primeiro livro'', já tem entre seus familiares comprador para uma das cinco cópias que recebeu de ''O Sumiço do Rei''. Estabeleceu o valor de R$ 15 para o seu conto de fadas. ''O legal de escrever um livro é que todo mundo fica dando atenção, perguntando como é. Gostei da experiência.'' Seu próximo passo será escrever um romance ao lado da prima Ana Victória, 11 anos, mas sete meses mais velha, que também fez o curso. A agente secreta Haylle Macailla será a personagem principal, uma espiã adolescente.
Cada aluno pagou R$ 180 mensais pelas aulas de uma hora e meia semanais. No curso, com seis meses de duração, tiveram lições de produção de texto e desenho, uma vez que as obras foram ilustradas pelos próprios mini-autores. A Editora Letternet, responsável por um café-livraria-espaço-para-cursos no Batel, está por trás de tudo - leia mais sobre eles em box nesta página. Os mais de quatro mil títulos infanto-juvenis disponíveis no espaço, por certo, auxiliam no processo. ''A professora sempre pedia para escolhermos um livro nas prateleiras'', lembra Gabriel, fã dos gibis de Chico Bento e dos livros do Capitão Cueca.
'''Eu não consigo escrever um livro', ouvi essa frase muitas vezes'', comenta a professora de português Tatiane Carolina de França, 27. Seu método, além de enfocar na produção de texto, está no despertar o gosto pela leitura, partindo do interesse de cada aluno. Gabriela, que carrega uma fada de prata no pescoço, estudou os contos de fada, buscando referências para construir sua narrativa. Em um primeiro momento, cada um da turma escreveu uma pequena história. Gabriela optou por uma parábola. Ana Victória, por sua vez, batizou seu divertido conto de ''A Princesa e as Cachorras no Baile Funk''. Quanto aos livros dos jovens escritores, trechos foram reproduzidos nesta página.
A pedido da FOLHA, Gabriel explica a estrutura de seu livro ''Histórias Legais''. ''Fala de algumas coisas que não acontecem e de outras que acontecem.'' E cita um exemplo para cada uma. ''O livro acaba com um cara que peida e todo mundo morre, que é uma coisa que não acontece'', diz. ''Das coisas que acontecem, pessoas vão para um show e entram sem permissão.'' Ainda que o final do livro tenha o seu quê de fantasioso, tem como ponto de partida um acontecimento de sala de aula. ''Foi um amigo que soltou vários puns barulhentos e a professora mandou ele para fora'', revela. Ludo, um dos personagens de seu livro, foi baseado em nosso presidente ''porque todo mundo sabe quem ele é''. Depois de uma entrevista para tevê e outra, para este jornal, Gabriel explicou que a vida de escritor cansa.
Avós incentivadores
No caso dos três pequerruchos entrevistados pela FOLHA, a família sempre incentivou a leitura. Ana Victória recorda que o avô Amilton sempre lia histórias para ela e que começou a ler por conta disso. Gabriel afirma que o mesmo aconteceu em seu caso com o vô Zé, seu companheiro e quem, por sinal, descobriu a existência do curso ao lado da esposa. Por fim, Gabriela diz que sua mãe, Claudia, lê muito e muito rápido. ''Pensei como um curso de redação'', revela a progenitora coruja. ''Mas fiquei bastante emocionada com o resultado. Eu e a família toda.''
Claudia conta que a filha já tinha o hábito da leitura, influenciada pelos familiares. A mãe não poupa o entusiamo e já pensa longe. ''Quando uma criança dessas - com dez, onze anos - chegar aos trinta, vai dizer que faz vinte anos que escreveu seu primeiro livro.''

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