ABAIXO A SOLIDÃO - Tímidos unem-se para 'enfrentar' vida social
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sábado, 05 de abril de 2008
Gilberto Amendola<br>Agência Estado 
São Paulo - De controle remoto nas mãos, Renato passeava pelos canais da tevê aberta. Por acaso, deteve-se em uma entrevista que o apresentador Amaury Jr. fazia com um alto executivo de uma multinacional. ''Eu conheço esse cara. Não é possível...''. A memória de Renato retrocedeu ao tempo em que ele ainda era aluno da quarta série do ensino fundamental. ''O garoto me obrigava a ir de joelhos até a carteira da menina que ele gostava. Tinha que entregar um bilhetinho para ela. A classe inteira ria.'' O garoto cruel cresceu e virou o tal executivo entrevistado pelo Amaury Jr.
Mas Renato também cresceu. E tornou-se integrante do grupo ''Introvertidos Anônimos'', em São Paulo, - formado por pessoas tímidas. Alguns integrantes entrevistados pela reportagem se recusaram a posar para foto. ''Não queremos aparecer porque o mundo é feito para os extrovertidos. O mundo é para gente como o garoto cruel da 4 série'', diz Renato.
Chegar aos ''Introvertidos Anônimos'' não foi fácil. O grupo não divulga o local em que costuma se reunir - apenas o número do celular de Gustavo, criador da irmandade. Para se ter uma idéia, antes de qualquer contato com os outros tímidos, o interessado em participar da reunião precisa ser entrevistado por ele. ''Não é uma triagem. Não barro ninguém. Mas conversando, consigo saber se a pessoa se enquadra na nossa irmandade. Se é tímido e tem fobia social.''
Gustavo é um ex-investigador de polícia. ''Tinha a mesma crise do Capitão Nascimento, do filme 'Tropa de Elite'. A diferença é que o capitão tinha o perfil para o trabalho que fazia. Não gostava daquilo. Não conseguia me relacionar com as pessoas, não tinha amigos, namoradas, nada. Preferia ficar trancado em casa. Era uma bomba relógio'', conta Gustavo
A bomba estourou. Os constantes ataques de pânico fizeram com que Gustavo fosse internado. ''Só consegui me recuperar quando conheci um membro dos Alcoólicos Anônimos (A.A.). Entendi que podia usar os mesmos passos do A.A. para me tornar uma pessoa mais sociável'', diz.
A irmandade dos ''Introvertidos Anônimos'' se reúne uma vez por semana. Fechados em uma sala de aula, o grupo conversa sobre garotas impossíveis e a falta de coragem em enfrentar situações cotidianas, como dar o sinal para um ônibus ou perguntar as horas para um estranho. ''A questão sentimental é a mais presente'', diz Gustavo.
Segundo os participantes, o tímido tem a tendência de transformar qualquer garota em Gisele Bundchen. ''A gente idealiza mesmo. O tímido é romântico e acaba virando a mulher da relação (quando tem alguma relação, não é?). A gente não consegue chegar em uma menina na balada. Qualquer rejeição vira um drama. Sei de cara que perdeu a virgindade com 32 anos'', lembra Flávio, membro do grupo.
''Sou fissurado por uma garota que estuda comigo. Descobri o e-mail dela e comecei a me confessar, anonimamente, por computador. Não tenho coragem de me declarar. Começo a suar, parece que vou ter um treco. Tive que parar com os e-mails porque ela se sentiu ameaçada. Disse que iria fazer um boletim de ocorrência'', diz Fernando, outro do grupo.
''Quando a gente se interessa por uma garota, a gente já imagina que não vai dar certo. Quando isso acontecia, eu ficava em casa ouvindo rock progressivo, daqueles bem tristes, enchendo a cara e pensando besteira'', fala Flávio.
Uma das formas de os tímidos se relacionarem com garotas é por meio das salas de bate-papo na internet ou com mensagens via MSN. ''Se a conversa vira um encontro, tudo bem. O problema é que as pessoas se escondem atrás do computador. O tímido fica só no mundo virtual'', alerta Gustavo.
Se as garotas são um problema para os tímidos, a vida profissional também não é das mais fáceis. ''A maioria tem de morar com a mãe depois de velho porque não consegue ser independente financeiramente'', conta Gustavo. ''As empresas valorizam os extrovertidos e agressivos. Em muitos casos, os tímidos são passados para trás. A gente trabalha mais e ganha menos.''
Discriminação
Os ''Introvertidos Anônimos'' se sentem discriminados pela sociedade. ''Eu chamo de racismo. Racismo forte'', diz Gustavo. Para ele, o preconceito já começa no próprio cinema, nas novelas e programas de TV. ''Sabe esses filmes em que o nerd se apaixona pela líder de torcida? Cara, ela tem de ficar sempre com o atleta, o jogador de futebol americano. Quando a menina fica com o nerd é porque alguém fez alguma concessão, um favor para o coitadinho do tímido'', lembra.
O que mais irrita um tímido é a falta de consideração. ''É horrível ouvir dizer que timidez é frescura, que depois de casar sara, que a gente não é homem de verdade'', fala Gustavo. ''Tem gente que torce para, um dia, inventarem uma pílula contra timidez'', completa.
A irmandade, que existe desde de 1994, tenta aproximar essas pessoas. A idéia é que eles não se sintam sozinhos no mundo, que possam dividir experiência uns com os outros. ''Aqui, a gente consegue até rir das nossas histórias'', diz Gustavo.
Para ele, uma pessoa nunca se cura da timidez, mas aprende a conviver com ela. ''Já conseguimos reunir pessoas que eram extremamente tímidas em um karaokê. Essa é uma vitória incrível.'' Os membros dos ''Introvertidos Anônimos'' estão se esforçando para sair da sombra. Quem sabe da próxima vez eles mostram a cara para a reportagem?
Serviço:
Para conhecer mais sobre o grupo, acesse www.introvertidosanonimos.org.br.


