A vingança dos nerds
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de julho de 2010
Carolina Avansini<br>Reportagem Local 
Eles gostam de estudar, tiram boas notas, interessam-se por assuntos como ficção científica, computadores, games, histórias em quadrinhos, seriados, RPG e jogos de tabuleiro. Também apreciam bandas de rock antigas ou desconhecidas, são capazes de filosofar por horas sobre teorias da consp-iração e trocam, sem pestanejar, a balada por programas introspectivos, como cinema cult ou partidas intermináveis de videogame.
Diferentemente dos excêntricos losers dos anos 1980, entretanto, os nerds do século XXI são uma tribo descolada. Em oposição ao estereótipo de garoto estudioso, tímido, que se veste com roupas escolhidas pela mãe e é constantemente zoado pelos colegas, muitos nerds contemporâneos são populares e até mesmo servem de modelo de comportamento para os amigos.
A popularidade é facilmente comprovada na internet, onde vários sites, blogs e grupos de discussão dedicam-se a difundir a cultura nerd. No site de relacionamentos Orkut, por exemplo, a pesquisa por comunidades que tratam do tema retorna mais de mil respostas.
A mais popular, chamada de Nerds Brasil, congrega 9.452 nerds assumidos, superando os opositores Odiamos nerds que não passam cola, com 7.399 inscritos. O sucesso dos garotos nerds entre as meninas também desconstrói a lenda de que não namoram. No grupo MAN - Mulheres que Amam Nerds, os 7.399 participantes atestam que, pelo menos no universo virtual, meninos inteligentes possuem muitas pretendentes.
E, de acordo com a enciclopédia virtual Wikipédia, os nerds também têm um dia. Em 25 de maio, é comemorado o Dia do Orgulho Nerd, uma iniciativa que advoga o direito de toda pessoa ser um nerd ou um geek (nerds tecnológicos). A data marca também a estreia de um ícone da tribo: o primeiro filme da série Star Wars, em 1977.
À vontade
Estudante do primeiro ano de Biomedicina na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Glauco Freire Vitiello, 18, não se considera um nerd estereotipado, mas confessa que frequentemente recebe a denominação dos amigos porque se interessa por assuntos que não são do gosto de todo mundo. No ano passado, estranharam porque comprei um livro sobre astronomia, contou ele, que gosta de física, química e biologia mas, nas horas de lazer, toca guitarra e escuta bandas antigas de hard rock.
Aprovado em segundo lugar no vestibular para Biomedicina e com a mesma colocação no ranking de Farmácia da Universidade Estadual de Maringá (UEM), Glauco afirmou que é estudioso, mas, como tem facilidade para aprender, dedicou-se arduamente às disciplinas apenas no terceiro ano do Ensino Médio. E, na faculdade, ele garante que se sente entre iguais. Fico bem à vontade, porque os alunos são do mesmo nível. Todo mundo é meio nerd.
Mediano
Mestre de RPG, aficcionado por quadrinhos, estudante de Farmácia e afeito a longas conversas existenciais com os amigos, Flávio Luise Bressan, 19, não disfarçou a empolgação quando questionado sobre o complicado jogo. Em segundos, mostrou peças, livro, personagens e deu uma rápida explicação sobre a lógica do RPG. É um teatro improvisado. Os personagens vão resolvendo problemas lançados pelo mestre, esclareceu.
Perguntado se considera-se nerd, entretanto, ele corrige. Sou uma pessoa com gostos nerds, disse, acrescentando que sempre tirou boas notas no colégio, mas tem sofrido com a questão na faculdade. Sou apenas mediano. Sem entusiasmo para programas que se estendem por toda a madrugada, ele conta que sai pouco. Apesar das evidências, Flávio não gosta de ser chamado de nerd. Não sofro com isso, mas me sinto um pouco discriminado.


